terça-feira, abril 17, 2007

PROVEDORIAS Diário de Notícias

Da crónica de hoje

O acaso no jornalismo

"Pela primeira vez

Tenho publicado depoimentos completos neste blogue. O espaço do jornal é limitado ao contrário da Rede. Pela primeira vez, incluo uma queixa do leitor na página web sem que o conteúdo seja desenvolvido no jornal papel. "

Diário de Notícias,


Como trabalham os jornalistas


NOTA: Os e-mails transcritos são correspondência entre os leitores, o provedor e o jornal. Retirei a identidade do leitor e da jornalista. Apenas corrigi algumas pequenas gralhas assinaladas pelo processador de texto.
Coloquei um breve comentário ao assunto.

PRIMEIRO E-MAIL DO LEITOR

-----Original Message-----
From: J...
Sent: Mon 09-04-2007 10:59
To: Provedor (DN/de); Webmaster
Subject: Lamento

Caro provedor

Esta manhã ao ler a notícia da jornalista S....., sobre o assassinato da nossa querida Eduarda Ferreira, lamento que esta profissional do DN não se tenha deslocado ao local do acidente porque se o tivesse feito veria que a pessoa que coloca a dizer na peça que viu a vítima a tentar tirar o gorro é mentirosa. A jornalista teria visto que atrás das bombas, aqui em Benavente, existe um enorme mato que impede a visão das casas mais próximas. Teria visto que a Eduarda Ferreira foi assassinada entre a loja e a estação de lavagem, onde o mato é ainda maior. Não passa pela cabeça de ninguém que uma pessoa que está refém ainda tente tirar o capuz à pessoa que coloca a sua vida em risco. E ainda passa menos pela cabeça que a jornalista não tenha feito qualquer destrinça entre as dezenas de versões que correm na nossa vila e até nas localidades vizinhas: toda a gente viu, toda a gente tem novos dados, mas a verdade é que ninguém sabe quem são os assaltantes. O que a jornalista deveria ter feito era: ter perguntado à GNR de Benavente quando é que esse senhor que presta declarações surgiu no local da noite do crime. Já a noite ia alta quando, todos os senhores que agora aparecem a falar, se abeiraram da estação de serviço. Não havia luz. A PJ não deixava ninguém aproximar-se. Até a família, o que sabe é do que ouviu de outros populares.
Porque é que a jornalista não escreveu a parte inicial do texto como o fez no fim? É que ela no fim comprova o que todos sabemos, a Xana não abre a porta a ninguém e recusa-se a falar. Agora colocar um senhor que não merece crédito algum a falar alarvidades que qualquer pessoa aqui poderia fazer, é lamentável. Faz-me confusão que a jornalista coloque as declarações de alguém sem que perceba a sua veracidade, porque senão está simplesmente a veicular uma acusação. E será que não cabia à jornalista perceber o que deve ser publicado, depois de uma investigação rigorosa? Sim, talvez. Todavia, a jornalista optou por fazer um trabalho mais rápido e despachar serviço falando com um senhor que nada viu. Ainda bem que não falou com um outro vizinho nosso que até pensou que os tiros era da festa de Benavente.

Cumprimentos

J.....

SEGUNDO E-MAIL DO LEITOR

-----Original Message-----
Sent: segunda-feira, 9 de Abril de 2007 11:29
To: Webmaster; Provedor (DN/de) Subject:

Bom dia,
Estimado provedor acabei de lhe enviar um e-mail onde descrevia a minha revolta para com um mau trabalho - considero - da jornalista S.....
Mas depois de ter enviado, ainda estive a ler o Público. E qual não é o meu espanto quando a mesma personagem que presta declarações à jornalista e que ela aproveita para dar como garantido logo no começo do texto, diz ao Público que se levanta às 5 da manhã e que já estava deitado. Eu nem precisaria que ele prestasse esta declaração ao Público, porque toda a gente sabe em Benavente que esse senhor é funcionário municipal. O que me choca é que, como disse no texto que enviei, a jornalista não tenha visto que era uma grande mentira ele ter assistido ao acidente quando nada se vê atrás do mato da ETC.
Se, depois de enviar o primeiro e-mail, ainda fiquei a pensar até que ponto a jornalista teria sido isenta, agora, depois de ter lido o Público, parece-me que: ou a jornalista associou a declaração a um senhor tendo se enganado no nome (eu espero que sim) ou então não respeita o título que tem e nem sequer se deu ao trabalho de fazer a contradita, que neste caso passava talvez não por ouvir uma outra pessoa - que não teria assistido como todos os outros que agora falam - mas, por visitar o local e colocar-se na pele da Eduarda e dos assaltantes e perceber a trajectória.

Sem mais,

J......

PS: em anexo, o e-mail que já havia enviado


-----Original Message-----
From: Provedor (DN/de)
Sent: Wed 11-04-2007 14:53



EMAIL DO PROVEDOR PARA O LEITOR
Caro leitor

Vou pedir esclarecimentos, tal como exige o Estatuto de provedor dos leitores.

"O provedor dos leitores exerce a sua função crítica através da secção semanal que publica no Diário de Notícias, da inserção pontual de textos (sempre que a importância do assunto o justifique) e de recomendações internas dirigidas à Direcção e ao Conselho de Redacção.

4. No exercício das suas funções, o provedor dos leitores pode solicitar à Administração, à Direcção, aos editores, aos jornalistas e ao Conselho de Redacção esclarecimentos sobre questões com incidência ética e deontológica, os quais devem ser prestadas, por escrito, no prazo de 72 horas.

4.1 As tomadas de posição do provedor dos leitores sobre textos assinados por jornalistas devem, sempre que possível, ser precedidas de esclarecimento prévio do respectivo autor ou, na ausência deste, do editor da secção."

Obrigado pela atenção que dá ao jornal.

Peço desculpa pelo atraso da minha resposta.

Melhores Cumprimentos

José Carlos Abrantes

E-MAIL DO PROVEDOR PARA O JORNAL

-----Original Message-----
From: Provedor (DN/de)
Sent: Wed 11-04-2007 15:03
To: Director (DN/de)
Cc: S.....
Subject:

Caro Director
Cara editora
Cara jornalista

Junto envio questões de um leitor referente a um trabalho publicado recentemente.
Agradeço os comentários que forem considerados pertinentes crónica de hoje.

Melhores cumprimentos

José Carlos Abrantes



----Original Message-----
From: S...
Sent: Thu 12-04-2007 13:52
To: Provedor (DN/de); e outros
Subject: Resposta ao Sr. Provedor


RESPOSTA DA JORNALISTA
Exmo. Sr. Provedor

Em resposta às questões suscitadas pelo leitor J...., que o senhor provedor do DN teve a gentileza de me enviar, cumpre-me dizer o seguinte:

1. Estive dois dias seguidos em Benavente, onde contactei com as autoridades policiais, ao contrário do que parece inferir-se da carta do leitor, e com vários populares que se afirmaram testemunhas de vários factos relativos com o assalto e subsequente assassinato ali verificados. Como a generalidade dos jornalistas presentes no local, foi com base nesses relatos - de autoridades e populares - que escrevi os dois textos publicados na edições do DN de 8 e de 9 de Abril.

2. Como bem se calcula, até pela missão que as forças de segurança ali desempenhavam nesses momentos, não era possível questionar as autoridades sobre a legitimidade e o “pedigree” de todos e cada um desses testemunhos.

3. Tive, pois, o cuidado de identificar quem foi citado no texto como testemunha, responsabilizando-o assim por essas afirmações. Houve, pois, no caso concreto, identificação da fonte.

4. Ao contrário do que o leitor - a cujo transtorno sou obviamente sensível - afirma, tive a oportunidade de constatar que do local da residência da testemunha citada eram visíveis partes importantes do cenário onde se verificou o crime.

5. Julgo, pois, num cenário e num ambiente que, como se calcula, não é propriamente fácil, ter cumprido as regras jornalísticas e ter desempenhado a minha missão.

Grata pela atenção, subscrevo-me, com consideração
S...


COMENTÁRIO DO PROVEDOR



Este comentário da jornalista descreve, tal como acentuo na crónica de hoje a propósito de outro caso, as condições precárias da investigação jornalística. [Estive] “com vários populares que se afirmaram testemunhas de vários factos relativos com o assalto e subsequente assassinato ali verificados. “ A expressão “que se afirmaram” mostra bem que a jornalista tem consciência de não ter estado forçosamente com testemunhas do assassinato. São pessoas que se afirmam testemunhas sobre vários factos. Ou seja, também os factos são hipóteses a desenvolver nos dias seguintes. Talvez esta falta de garantias devesse ter sido mais sublinhada no texto para que os leitores pudessem ser menos expectantes. Por outro lado, a jornalista contactou as autoridades policiais: mas sabe-se como, em tais casos, estas são parcas em divulgar informações, se as têm.

A jornalista poderia ter usado um termo mais apropriado do que o de pedigree para qualificar a legitimidade dos testemunhos que são credíveis, pertinentes ou verdadeiros. É certo que esta expressão é usada, em sentido figurado, na linguagem corrente. Porém, sendo pouco adaptada, não se vê motivo para que seja consagrada no campo jornalístico.

O leitor, directamente implicado e emocionado com o acontecimento vivido, condena veemente a jornalista. Em rigor, julga com severidade excessiva.