segunda-feira, abril 02, 2007

ESTUDO SOBRE A EDIÇÃO ONLINE DO DN

EDIÇÃO ONLINE DO DIÁRIO DE NOTÍCIAS
- Contributos para uma reflexão

Ricardo Nunes
Docente Ensino Superior e Jornalista

Resumo
Com o presente texto, “Edição Online do Diário de Notícias – contributos para uma reflexão”, pretende-se sistematizar um conjunto de dados sobre o trabalho realizado pelo Diário de Notícias, na sua versão digital, de acordo com várias perspectivas de análise: organizacional, informativa, conteúdos, serviços associados, etc., procurando contribuir com uma reflexão critica sobre o produto apresentado aos consumidores finais. O documento foi construído numa dupla interpretação do autor académico e autor jornalista, procurando assim enriquecer o seu resultado final.

Pontos em análise
O texto que sucintamente se apresenta foi organizado em três momentos fundamentais: (1) Alguns tópicos de enquadramento; (2) Edição online do Diário de Notícias – análise de vários indicadores; (3) Pistas para não concluir. Proceder-se-á ao enquadramento conceptual sobre o assunto em análise, seguidamente apresentam-se os dados sobre a edição online do DN, terminando com algumas sugestões teórico-práticas sobre o que se entende ser um conjunto de orientações estratégicas para a referida produção digital. Para o efeito, recorrer-se-á a um breve, mas focado, levantamento bibliográfico e à análise pontual do site do Diário de Notícias, num cruzamento com a componente conceptual de especialidade.

(1) Alguns tópicos de enquadramento
A breve, mas rica e complexa, existência da imprensa no universo online, tem posicionado vários autores num conjunto de interpretações sobre o que significa estar na net, produzir para a net, afirmar uma edição através da plataforma digital.

Depois da implantação e generalização, quer da Internet, quer dos seus caminhos virtuais através da www, a segunda metade dos anos 90 constitui-se como o momento de afirmação crescente dos media tradicionais no formato digital. Não só a rede se torna mais popular, como a curiosidade de jornalistas e empresários conduz ao aparecimento de inúmeras edições online e, nalguns casos, exclusivamente produzidas em formato digital. A sedução do jornalismo pela Internet enfrenta uma dúvida existencial, já que o sucesso e a aceitação do modelo vigente enfrenta agora o desafio de um novo suporte, logo revestida de um conjunto de exigências ao nível da produção e do consumo.

Esta é ainda uma fase caracterizada pela (1) transposição literal dos conteúdos desenvolvidos na edição impressa para a versão online. O shovelware, como ficou conhecido, vinca a grande maioria das experiências mediáticas que davam, na altura, os primeiros passos. O experimentalismo, o desconhecimento e, sobretudo, a falta de consciência de que o meio emergente tinha personalidade própria marcaram grande parte dos primeiros projectos que se resumiram a transferência de dados, do tipo corta e cola…. De resto, uma situação que ainda hoje continua a marcar muitas das edições online, um pouco por todo o planeta.

Ora, tendo-se alterado os paradigmas da comunicação, forçoso será pensar que esses mesmos modelos progressivamente se instalem em terreno permeável. Assim, da já referida transposição do impresso ao digital, chegamos a uma fase intermédia: (2) o Jornalismo Assistido por Computador. Como o nome indica, não constitui uma experiência digital por excelência na assumpção de ferramentas, conceitos e cultura associada ao multimédia, mas uma forma de coadjuvar o acto de fazer jornalismo. A rede instala-se como uma fonte adicional de informação, ao serviço das redacções.

Os desafios do multimédia vieram, de forma avassaladora, imprimir uma reformatação de procedimentos, bem como a disponibilização de ferramentas e conceitos adjacentes sem precedentes. O léxico no campo da comunicação como que explodiu em muito pouco tempo e, consequentemente, surgiram novos fenómenos e definições: glocalização, interface, comunicação mediada por computador, downloads, multimédia, weblogs, interacção, chat’s, fórum, world wide web, mailing list, browser, portal, ciberespaço, e-mail, newsgroup, ciberleitura, hipertexto, largura de banda, webwriting, cibercultura, cookies, wikkies. Eis-nos chegados à experiência do (3) Jornalismo Online.

Que mudanças implicou a instalação do paradigma? A montante e a jusante o jornalismo não se altera na essência dos princípios fundamentais, mas há um novo e revolucionário modo de pensar o jornalismo e a informação baseados nos seus modos de busca, tratamento e síntese. De modo abreviado, podemos dizer que pensar jornalismo online significa ter presente, entre outros, os seguintes aspectos:

a) Reconfiguração das redacções (profissionais com novas competências técnicas); autonomia e/ou integração de redacções clássicas e digitais;
b) Exercício de um jornalismo assente em novas formas de comunicação (multimédia, hipertexto, instantaneidade, personalização, interactividade, universalidade, periodicidade; distribuição; documentação; arquivo, etc.)
c) Fruição, ao nível do consumo, de novos e exigentes públicos.

(2) Edição online do Diário de Notícias – análise de vários indicadores

Analisar, em termos práticos, o site do Diário de Notícias é ter por princípios orientadores o que teóricos e investigadores têm publicado sobre este assunto, as experiências dianteiras de alguns órgãos de comunicação social e a realidade concreta da edição noticiosa digital do DN.

Embora tenha sido um dos jornais pioneiros nas lides internéticas (Dezembro de 1995) em Portugal, o Diário de Notícias na versão digital acusa hoje algumas fragilidades de forma e conteúdo quando comparada, em termos nacionais, com o jornal O Público, uma das referências identificadas por académicos em estudos sobre a informação online.

Assim, de modo esquemático, passamos a apresentar algumas considerações sobre aspectos organizativos, editoriais, de serviços associados, etc., que melhor traduzem as características deste produto:

a) Enquadramento empresarial

➢ Revela convergência da propriedade dos meios a que pertence, o grupo Lusomundo PT, nomeadamente pelas ligações com o Sapo e o colectivo de órgãos de informação parentais;

➢ Recorre à produção informativa da TSF online, rentabilizando sinergias de grupo, não apostando num serviço próprio de notícias de última hora;


b) Conteúdos

➢ Disponibiliza uma parte da informação produzida em papel (entre os 70% e os 80%). São publicadas na íntegra as notícias principais de cada secção, sendo excluídas as breves e as que compõem os cabeçalhos das páginas;

➢ Apresenta fotografias e ilustrações que, em sintonia com os títulos, constituem hiperligações para o interior das notícias, mas reduzidas na edição online (entre 39% a 43% das notícias surgem acompanhadas de fotografia, quando na edição impressa esse valor se situa entre os 44% e os 51%);

➢ É frequente o texto remeter o leitor para uma chamada de atenção “Ver caixa”, não havendo nenhuma ligação para tal destino. Por vezes, a referida “caixa” surge em rodapé, remetendo para outro texto sobre o mesmo assunto ou conexo, mas sem referência explícita ao momento em que o leitor é convocado aquando da leitura da notícia principal;

➢ A (quase) totalidade dos textos são escritos para a sua forma impressa, sendo a versão digital a transposição literal das notícias, não aproveitando os recursos multimédia, nem mesmo o arquivo próprio sobre o mesmo assunto;

➢ A edição online do DN permite o acesso às últimas 25 edições publicadas. De modo absolutamente livre (sem registo do utilizador, sem pagamento prévio) é possível aceder quase a um mês de edições, sem restrições de consulta;


c) Serviços

➢ O site possibilita “Pesquisa” interna através de um motor específico (Sapo) que, de acordo com os descritores apresentados, fornece os resultados existentes;

➢ Ausência de um espaço de debate, tipo Chat ou Fórum. Regista-se a existência de um inquérito temático, que muda de acordo com a actualidade, mas sem aproveitamento prático na produção informativa. Este Inquérito não permite ter conhecimento prévio do sentido da votação, surgindo, após o voto, um quadro com os resultados acumulados até ao momento. Nesse quadro dá-se a conhecer o dia, mês, ano e hora em que foi activado, total de respondentes em número absoluto e percentual. Estes dados são acompanhados de um gráfico de leitura fácil;

➢ O site disponibiliza ligações para os seguintes serviços:

- Na zona de “Classificados” (colocação e pesquisa de anúncios), de acesso a utilizadores previamente registados, possibilita-se a consulta através de pesquisa orientada pelas principais classes de produtos/serviços existentes: imobiliária, emprego, veículos, relax, diversos e ensino). Este serviço está associado a publicações do grupo empresarial (24 Horas, Tal & Qual, Jornal de Notícias e Ocasião). Admite pesquisa interna;

- Assumindo uma lógica de grupo empresarial, a “Loja Global Notícias” permite a aquisição de várias publicações divididas pelas categorias de livros, música, vídeo, jogos, utilidades, numismática, CDI e diversos. A categoria CDI, que não apresenta explicação para a sigla, admite a possibilidade de acesso aos Textos em Arquivo, mediante pagamento, mas apenas dos textos publicados no Jornal de Notícias. Ainda nesta categoria é possível encomendar a Primeira Página do JN. “Surpreenda um amigo, oferecendo-lhe a primeira página do dia em que ele nasceu, em papel normal, do tipo jornal ou de embrulho e em formato A3 ou A2”, diz o site, referindo-se exclusivamente à edição do Jornal de Notícias;

- Através do Cartão Global Notícias abre-se a possibilidade de amealhar pontos através da consulta das várias editorias do site, mediante inscrição prévia e validação com número de cartão e password;

- “O que fazer para 2007 ser um ano melhor?” pergunta o jornal nesta categoria denominada Ideias para 2007 – têm a palavra os leitores. Logo a seguir deixa o repto “Este é o desafio que o DN faz aos leitores. No início do ano publicaremos as suas opiniões.
Todas as análises serão bem-vindas, todas as temáticas estão em aberto, das que preocupam o planeta até às da aldeia mais isolada de Portugal, da sua rua, escola ou empresa, da sua profissão, emprego ou passatempo.
Escreva e envie (máximo 1200 caracteres)”. Este é um dos raros desafios lançados ao leitor, estimulando a comunicação com o jornal;

- O rectângulo dedicado ao “Provedor do Leitor” remete para os textos do Provedor, sem qualquer enquadramento sobre a sua actividade, textos de arquivo ou regulamento das funções exercidas. Os textos do Provedor para além da identificação do seu autor, são acompanhados de fotografia. Ao lado encontra-se o “O Cartoon de Bandeira”, reproduzindo a “tira” da edição impressa, ausente de qualquer texto de enquadramento. O espaço do “DN Jovem”, contemplando a participação dos mais novos, surge numa página ausente de dinamismo, surpresa e sedução. O “Curso de Línguas Muzzy”, ausente da loja virtual, tem direito a um espaço próprio, procurando cativar os leitores a adquirir um curso multilínguas, um evidente produto de marketing empresarial.

Face ao levantamento efectuado tendo por base o mapeamento feito ao site, importa fixar alguns pontos fundamentais para discussão, tendo em conta o que se entende como características do paradigma digital associado à produção jornalística online. Assim, e de forma abreviada, sintetizam-se algumas ideias chave do novo processo de construção informativa, contemplando elementos de arquitectura conceptual do site, Organização da redacção, conteúdos e formas complementares de comunicação.

a) Arquitectura conceptual do site
- A primeira página não permite a visualização total, num claro prejuízo da noção de conjunto da montra informativa;
- A “home” segue uma lógica simples, intuitiva mas pouca sedutora no grafismo e nas apostas editoriais;
- Mostra conteúdos em dois níveis de apresentação: “Destaques” (até 3 notícias) e “DN Edição Papel” (índice correspondente à edição impressa);
- Ausência de factor surpresa, estímulo adicional, envolvimento amigável;
- “Últimas notícias” ou “Última hora” remetido para a edição online da TSF, não correspondendo por isso a apostas editoriais próprias do estilo DN;
- Arquivo disponível apenas em relação aos últimos 25 dias;
- Edição PDF não contemplada;
- Ausência de estratégia comercial que rentabilize conteúdos (imediatos de última hora, dossiês e arquivo);
- A personalização e/ou individualização dos conteúdos, uma das bandeiras das edições online, não surge como uma possibilidade de fidelização dos leitores;
- Globalmente desadequado face às técnicas existentes desta plataforma.

b) Organização da redacção
- Inexistência de redacção própria, sendo o trabalho jornalístico concebido pela estrutura do DN versão papel, sendo os conteúdos conteúdos introduzidos e actualizados durante a madrugada por um jornalista do serviço de agenda.

c) Conteúdos
- Mantém uma abordagem absolutamente lateral ao actual momento da comunicação digital jornalística, apresentando no site a transposição das principais notícias da versão impressa;
- Ausência de infografias como complemento visual às notícias, hiperligações para outras notícias e/ou para sites específicos;
- Ausência de dossiês temáticos;
- Ausência dos suplementos semanais;
- Globalmente desadequado face às técnicas existentes desta plataforma.

d) Formas complementares de comunicação
- Inexistência de uma agenda cultural ou guia temático de lazer;
- Inexistência de projectos de ligação à comunidade (ex. Público na Escola);
- Inexistência de ferramentas interactivas de comunicação directa (blogues, chats, fóruns) e indirecta (podcasts, stream, rss, feeds, vídeos, wap, sms, mms);
- Inexistência de entretenimento;
- Globalmente desadequado face às técnicas existentes desta plataforma.

(3) Pistas para não concluir
Constatam os teóricos e comprovam as experiências jornalísticas que a Internet, progressivamente, tem alterado a configuração das redacções, estimulado novas competências técnicas, rotinizado novas práticas na tribo jornalística, estimulado conteúdos multimédia, formas sedutoras de captar velhos e novos públicos construtores de informação.

Pelo exposto anteriormente, e apesar de 10 anos passados sobre o jornalismo online em Portugal, o Diário de Notícias está longe de se encaixar naquilo que John Pavlik descreve como sendo a terceira fase da evolução do paradigma digital associado ao jornalismo – no caso em apreço, a existência de uma edição impressa e, num suporte binário, um jornal que apresente conteúdos pensados, escritos e apresentados para a net.

O Diário de Notícias manifesta falta de estratégia para o dispositivo online, traduzida no débil investimento técnico e humano na sua edição digital, revelador de uma estratégia editorial que não tem depositado neste suporte muita da sua confiança, entusiasmo e vontade. O levantamento realizado repete com frequência os vocábulos, “inexistência”, “ausência” ou “desadequação”, revelando ser este um site palidamente conforme o conhecimento e as técnicas existentes neste domínio. Uma leitura mais fina desta realidade pressupõe um conhecimento interno das lógicas que se encontram associadas ao nascimento e manutenção da página do DN, realidade de todo imperceptível na visão centrada no ecrã virtual das notícias.

Um outro desafio, bem mais ambicioso teria por orientação dar resposta a várias questões como as que, a título de exemplo, seguidamente se apresentam: “ Qual as função da página? Como é que os vários tipos de media se posicionam na Internet e de que forma rentabilizam as suas potencialidades e especificidades? Que diferenças e semelhanças revelam? Quem são os principais autores envolvidos? Que estratégias de rendabilidade económica desenvolvem? Que tipo de identidade descrevem?” (Soares, 2006)

Não cabe nesta reflexão o olhar aprofundado de quem se encontra, externamente, a ler um produto chamado http://dn.sapo.pt/. A leitura, a distância, permite desde já identificar um conjunto de aspectos positivos e outros carentes de intervenção urgente, caso seja esse o desafio pretendido de quem gere os destinos do Diário de Notícias. Se assim não for o entendimento, certo será que os estudos académicos apontem, infelizmente, a concorrência (O Público online) como o melhor produto do género elaborado em Portugal.

Sobre o autor
Jornalista, Doutorando da Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, especialização em Ciências da Comunicação “Audiovisuais e Novos Media”, Mestre em Ciências da Comunicação UNL-FCSH, especialização em “Audiovisuais, Multimédia e Interactividade”, docente da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal.



Bibliografia

BASTOS, Helder (2000)
Jornalismo Electrónico – Internet e Reconfiguração de Práticas nas Redacções, Coimbra: Editorial Minerva.

CANAVILHAS, João (2004)
A Internet como Memória, in http://www.bocc.ubi.pt/pag/canavilhas-joao-internet-como-memoria.html

NUNES, Ricardo (2000)
Notícia Online – Implicações da Linguagem Multimédia no Discurso Jornalístico (Dissertação de mestrado – UNL/FCSH), Lisboa, 1º Vol..

PAVLIK, John V. (1997)
“The Future of online journalism: a guide to who’s doing what”. In Columbia Journalism Review, Julho/Agosto (http://wwwcjr.org/html97 07 08 online.html).

SOARES, Tânia de Morais Soares (2006)
Cibermedia: os meios de comunicação social portugueses online, Lisboa: Escolar Editora.

SILVA, António José Lopes da (2006)
Os diários generalistas portugueses em papel e online. Lisboa: Livros Horizonte.