segunda-feira, abril 02, 2007

Depoimento de ROGÉRIO SANTOS

"No meu entender, não há manipulação das capas dos dois jornais.
No caso de 11 de Fevereiro, existe apenas um exemplo de má concepção estética da capa. Eu escrevi isso na altura no meu blogue (e tive uma resposta imediata de um responsável pela edição contra a minha interpretação). Comprar um jornal apenas com aquela informação na capa não me parece particularmente feliz. Os media, em especial os jornais de papel, precisam de ser apelativos - mas não sensacionalistas - no modo como veiculam a informação sobre os acontecimentos de maior relevo. Uma capa com letras a negro e em tamanho garrafal, com pouco dinamismo em toda a página (dois quadrados simulando o voto no sim e no não no referendo), orientada para um só acontecimento - e ainda por cima conhecido de toda a gente e não veiculando informação dramática ou catastrófica ou de ruptura - não venderá muito. O rigor e a isenção precisam de ser acompanhados pela alegria com que se olha uma página - vender um jornal é tão significativo como ser objectivo e ter uma informação com acurácia.
Retirando o lado menos estético, o jornal tomou o partido pela responsabilidade e pelo apelo à participação cívica. Foi, talvez, o melhor jornal do dia, nesse sentido. Nada no texto pressupõe um apelo ao voto no sim ou no não. A posição correcta da direcção do jornal continuou no dia seguinte ao da votação: usando um mesmo tipo de grafismo, o jornal informou os resultados. Mas, a meu ver, escolheu de novo um grafismo errado, até porque toda a gente já sabia dos resultados através da televisão, nomeadamente.
A diferença entre as capas da gestão António José Teixeira e da actual direcção é que esta monta a primeira página como um mosaico, a exemplo da internet, chamando a atenção do leitor para múltiplas notícias no interior do jornal.
O título sobre o caso da criança E. (Esmeralda) pode ter sido levemente empolado, no sentido do sensacionalismo (ou dramatização), pois joga com sentimentos que estavam à flor da pele (a pré-campanha para o referendo do aborto estava já no ar; o tema é de corte cultural, quase de ruptura entre os que defendem o aborto e os que condenam).
Num e noutro caso, não me parece que a posição do leitor seja muito defensável. As capas são resultado de decisões editoriais e da direcção, à hora de fecho da edição, para a qual a redacção no seu conjunto pode não ter influência. As peças já foram escritas, os jornalistas já se foram embora nesse dia, quando a capa é decidida e fechada. É certo que a capa é a sala de entrada de um jornal, a qual nos leva à decisão de comprar ou não comprar. Mas dizer que a isenção e independência dos jornalistas é posta em causa é uma afirmação gratuita de um leitor. Felizmente, nós sabemos que são os jornalistas e os editores, pois eles são escrutinados todos os dias pelo seu trabalho. Infelizmente, não conhecemos um qualquer leitor que escreve - neste caso, de modo gratuito e superficial, digo eu. O que significa que um juízo de valor de um leitor que escreve ao provedor também precisa de ser ponderado."

Rogério Santos