sábado, abril 28, 2007

PROVEDORIAS Hoje, no DN

O provedor também erra

A minha última crónica do Diário de Notícias chama-se de “Fonte (In)Segura”e é sobre as relações do jornalismo com as fontes políticas. Considero que os jornalistas usam as fontes anónimas em excesso. Um leitor, devidamente identificado, coloca o problema das fontes que deram origem a uma notícia sobre a Presidência da República a 6 de Abril. A crónica tinha referências à argumentação da jornalista: "A resposta da jornalista espanta. É preciso sublinhar que este não foi um desmentido qualquer, mas sim um desmentido categórico. Como pode continuar a dar-se confiança a uma fonte oficiosa que, apesar de próxima da Presidência, poderá ter interesse em divulgar informações incorrectas à imprensa? Haverá precedentes de desmentidos categóricos seguidos de uma mudança na posição oficial da Presidência, invalidando o desmentido? A prudência deveria ter sido e, sobretudo, deverá ser, maior, para o futuro. O verdadeiro problema não é se a jornalista mantém a confiança na fonte. É se os leitores mantêm ou perdem a confiança no jornal."

Na crónica escrevi o seguinte:
“A resposta da jornalista espanta. É preciso sublinhar que o desmentido não foi um desmentido qualquer, mas sim um desmentido categórico. Como se pode continuar a dar confiança a uma fonte oficiosa que, apesar de próxima da Presidência, poderá ter interesse em divulgar informações incorrectas à imprensa? Haverá precedentes de desmentidos categóricos seguidos de uma mudança na posição oficial da Presidência, invalidando o desmentido? A prudência deveria ter sido e, sobretudo, deverá ser, maior, para o futuro. O verdadeiro problema não é se a jornalista mantém a confiança na fonte. É se os leitores mantêm ou perdem a confiança no jornal.”

Igual posição sobre as fontes tem sido tomada por outros provedores da imprensa. Os códigos deontológicos e os livros de estilo também não dão tréguas a esta prática, usada, demasiadas vezes, para ser credível.

Mas a prudência deveria ter sido maior no meu escrito tal como predicava para a jornalista. Escrevi sem ter acesso ao despacho da Lusa, acesso que faz falta e não tem estado previsto.
A minha resposta continha um erro. Considerei que o “desmentido categórico” de fonte oficial existiu , quando, na verdade, se tratou de uma afirmação de uma fonte encoberta e divulgada por uma agência de notícias. Se a utilização destas fontes já é pouco aconselhável nos jornais, o papel de uma agência de notícias é de responsabilidade ainda maior. O despacho que contém este desmentido é algo que não enobrece o trabalho da agência, nem as fontes (anónimas) de Belém. “Continuo a manter a confiança nas referidas fontes, apesar do desmentido que foi feito, também por uma "fonte" de Belém à agência Lusa“. Esta frase da jornalista passou sem o devido valor na crónica. De facto, atribuí um valor indevido ao desmentido pois as aspas postas pela jornalista advertiam para a precariedade da fonte da Lusa (“fonte de Belém à agência Lusa”).

Na ausência de um desmentido categórico oficial da Presidência da República ou de fontes claramente assumidas, é difícil saber onde está a verdade. A fonte da jornalista não pode ser considerada mais ou menos fiável do que a da agência Lusa. O provedor também erra. Ele pode relembrar que o trabalho jornalístico não deveria aumentar a capacidade de manobra dos que fazem política na sombra. A utilização generalizada de fonte anónimas é isso que encoraja. É um daqueles casos em que o todo não é igual à soma das partes.


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Eis a crónica de 24 de Abril de 2007

DE FONTE (IN)SEGURA


José Carlos Abrantes
provedor@dn.pt

As fontes fazem as notícias, sustentam alguns grandes conhecedores do jornalismo. Esta apreciação, um tanto exagerada, chama a atenção para um dos aspectos mais importantes desta actividade. A rede de contactos dos jornalistas, construída dia a dia, é um dos seus instrumentos de trabalho mais preciosos. A partir dela, conhecem e confirmam factos novos, testam hipóteses, tentam compreender os acontecimentos. Na época actual, outras fontes têm ganhado relevo, além das tradicionais. As agências de comunicação têm peso na construção da narrativa jornalística e adquiriram importância crescente nos últimos anos. Outras fontes institucionais organizaram-se melhor que os jornalistas. A televisão e a imprensa escrita e online, bem como a rádio, funcionam como fontes recíprocas nas diferentes horas do dia. Os blogues têm também mostrado capacidade de desencadear algum sobressalto cívico e alguma inquietação informativa. Que o diga José Sócrates, nosso primeiro-ministro. No que diz respeito à polémica sobre os diplomas, a imprensa portuguesa separou águas ao citar a blogosfera como origem da notícia, como fez o DN. No caso de hoje, interessam- -nos as fontes políticas.

Um leitor, devidamente identificado, coloca o problema das fontes que deram origem a uma notícia sobre a Presidência da República a 6 de Abril. "(...) Lê-se hoje 'Cavaco prepara resposta', sem que, concluída a leitura do artigo, em que é citada uma fonte anónima, alegadamente 'próxima de Belém', fique a perceber-se que resposta prepara o PR.

Para que o texto não fique 'coxo' e curto para honras de manchete, são ouvidos dois sociólogos, um dos quais membro da Comissão de Honra da candidatura de Cavaco Silva. Comissão de Honra essa que, se não ultrapassou o milhar de pessoas, integrou seguramente algumas centenas. Que legitimidade acrescida assiste ao referido sociólogo para interpretar e até 'adivinhar' o sentido da intervenção presidencial (em que, repito, o artigo é omisso)?

Fica-me portanto a nítida sensação de 'ter ido ao engano' e de o título do artigo (ambos) ter despertado em mim uma curiosidade que não ficou minimamente satisfeita após a leitura do mesmo. Em linguagem popular é aquilo a que vulgarmente se chama 'vender gato por lebre'."

O leitor, num e-mail adicional, acrescenta : "(...) Escrevi a primeira mensagem ainda antes de ter tomado conhecimento do desmentido pela Presidência da República de que o assunto da licenciatura do primeiro- -ministro foi alvo de discussão, análise, entre o Presidente da República, Cavaco Silva, e os seus mais directos colaboradores.

Na minha opinião, e ainda que um desmentido oficial (ainda mais tratando-se do Chefe do Estado) seja por si só castigo e descrédito suficientes para o órgão de comunicação social em causa e, sobretudo, para o jornalista que assina o artigo, mais pertinente se torna o meu reparo."

A jornalista Paula Sá enviou a seguinte explicação: "O jornalismo de qualidade raras vezes deve assentar em fontes anónimas. É nessa prática que me revejo ao longo dos meus 18 anos de trabalho, a maioria dos quais como jornalista da área política. Contudo, a prática leva-nos muitas vezes a ter de abrir excepções quando os assuntos são tão delicados quanto o que o leitor menciona.

Faço a cobertura da Presidência da República e foi-me solicitado pela editoria da secção que investigasse como Belém estava a encarar o 'caso da licenciatura do primeiro-ministro'. O DN ouviu duas fontes ligadas à Presidência, que considerámos idóneas, que nos garantiram que o Presidente teria trocado impressões com os seus colaboradores mais próximos por estar preocupado com as repercussões da polémica nos assuntos correntes da governação, como seja o bom ritmo das reformas. Como é óbvio, as mesmas fontes pediram-nos para não serem citadas pelas consequências que daí poderiam advir para a sua ligação a Belém.

Continuo a manter a confiança nas referidas fontes, apesar do desmentido que foi feito, também por uma 'fonte' de Belém à agência Lusa."

A resposta da jornalista espanta. É preciso sublinhar que este não foi um desmentido qualquer, mas sim um desmentido categórico. Como pode continuar a dar-se confiança a uma fonte oficiosa que, apesar de próxima da Presidência, poderá ter interesse em divulgar informações incorrectas à imprensa? Haverá precedentes de desmentidos categóricos seguidos de uma mudança na posição oficial da Presidência, invalidando o desmentido? A prudência deveria ter sido e, sobretudo, deverá ser, maior, para o futuro. O verdadeiro problema não é se a jornalista mantém a confiança na fonte. É se os leitores mantêm ou perdem a confiança no jornal.

Bloco-notas

Anteriores provedores

Num período de balanço de três anos de provedoria podemos olhar além do caso individual. Os diferentes provedores do DN têm-se confrontado com situações similares ao longo dos dez anos de provedoria. Mário Mesquita escreveu uma crónica intitulada Perfil do 'jornalista de fontes', Diogo Pires Aurélio analisa sete casos relacionados com fontes (entre elas "Fontes de descrédito" e "Fontes anónimas"), Estrela Serrano seis (entre elas "A notícia do rumor" e "A regra do off" (1). Os casos são diferentes uns dos outros, mas a permanência do tema é evidente. Como resolver? Talvez não seja resolúvel. Talvez tenhamos de considerar este problema como um "flagelo" permanente, como existem os mortos na estrada ou carros em cima dos passeios. Mas, para manter uma relação de confiança com os leitores, devemos evitar a indiferença. O problema não é só dos provedores: estão implicados os redactores, os editores e os directores, e, em primeira linha, os leitores. No DN o recurso às fontes anónimas deve ser mesmo excepcional e não pretexto para a guerrilha política.

(1) Nos livros de crónicas já citados em anteriores artigos.

Correio sobre o novo DN

O correio dos leitores sobre as mudanças recentes do DN será analisado em próxima crónica. Se tiver opinião sobre este tema, envie-a por e-mail ou carta.

sexta-feira, abril 20, 2007

Declaração recente do Ministro Mário Lino

"Gostaria de divulgar o Comentário que se segue sobre uma

Com os melhores cumprimentos

António Brotas

COMENTÁRIO

A utilização admitida pelo ministro Mário Lino de aeroportos militares, nomeadamente do do Montijo, para receberem voos civis, afastando assim por uns anos a saturação do aeroporto da Portela, parece ser uma medida inteiramente acertada.

A nossa Força Aérea, que assegurou recentemente a segurança e o funcionamente do aeroporto de Cabul no Afeganistão aberto ao trânsito civil e militar, parece vocacionada para futuras actuações internacionais do mesmo tipo. Porque não habituar-se em Portugal ao contacto com civis? A base das Lages da Força Aérea, nos Açores, é utilizada por aviões civis e militares. Porque não fazer o mesmo no Continente? Aparentemente, basta um protocolo de acordo entre o Ministério da Defesa eo MOPTC.

O aeroporto do Montijo é uma base militar actualmentre com um movimento muito reduzido. Foi, ou está em vias de ser transferido para lá o "aeroporto" do Figo Maduro, que é uma simples zona do aeroporto da Portela até agora reservada para voos militares e oficiais. É perfeitamentre possivel, com custos mínimos, transferir para lá parte dos voos "low cost" que actualmente sobrecarregam a Portela.

Mas, atenção. A prevista ponte para o Barreiro, que atravessa o Tejo no enfiamento da pista principal do Montijo, pode enviabilizar ou, pelo menos, reduzir significativamente a segurança deste aeroporto.

Nos planos do MOPTC esta ponte, destinada fundamentalmente aos comboios para Badajoz e para o Algarve, deve ser completada por uma outra entrada a Norte de Lisboa para os TGV para o Porto. Os dois projectos têm custos financeiros e ambientais elevadíssimos. Há assim que estudar com muito cuidado o modo de travessia do Tejo e as entradas dos TGVs em Lisboa. Estes assuntos, que foram ignorados nas últimas eleições autárquicas, serão certamente temas centrais nas próximas.

E entretanto, o que é que vamos fazer?

Podemos, desde já, dar grande prioridade à construção da linha TGV mista (para passageiros e mercadorias) de Badajoz ao Pinhal Novo, particularmente barata e facil de construir.

Com esta linha construida, fica assegurada a ligação à rede ferroviária europeia da futura Plataforma Logística do Poceirão e das indústrias da Peninsula de Setubal , o que é fundamental para a sua sobrevivência. O trânsito de passageiros de Madrid a Lisboa fica também assegurado em condições muito razoaveis. E ficamos com tempo para estudar sériamente a localização do NAL e o modo dos TGVs atravessarem o Tejo.

António Brotas

Professor Catedrático Jubilado do IST"

terça-feira, abril 17, 2007

PROVEDORIAS Diário de Notícias

Da crónica de hoje

O acaso no jornalismo

"Pela primeira vez

Tenho publicado depoimentos completos neste blogue. O espaço do jornal é limitado ao contrário da Rede. Pela primeira vez, incluo uma queixa do leitor na página web sem que o conteúdo seja desenvolvido no jornal papel. "

Diário de Notícias,


Como trabalham os jornalistas


NOTA: Os e-mails transcritos são correspondência entre os leitores, o provedor e o jornal. Retirei a identidade do leitor e da jornalista. Apenas corrigi algumas pequenas gralhas assinaladas pelo processador de texto.
Coloquei um breve comentário ao assunto.

PRIMEIRO E-MAIL DO LEITOR

-----Original Message-----
From: J...
Sent: Mon 09-04-2007 10:59
To: Provedor (DN/de); Webmaster
Subject: Lamento

Caro provedor

Esta manhã ao ler a notícia da jornalista S....., sobre o assassinato da nossa querida Eduarda Ferreira, lamento que esta profissional do DN não se tenha deslocado ao local do acidente porque se o tivesse feito veria que a pessoa que coloca a dizer na peça que viu a vítima a tentar tirar o gorro é mentirosa. A jornalista teria visto que atrás das bombas, aqui em Benavente, existe um enorme mato que impede a visão das casas mais próximas. Teria visto que a Eduarda Ferreira foi assassinada entre a loja e a estação de lavagem, onde o mato é ainda maior. Não passa pela cabeça de ninguém que uma pessoa que está refém ainda tente tirar o capuz à pessoa que coloca a sua vida em risco. E ainda passa menos pela cabeça que a jornalista não tenha feito qualquer destrinça entre as dezenas de versões que correm na nossa vila e até nas localidades vizinhas: toda a gente viu, toda a gente tem novos dados, mas a verdade é que ninguém sabe quem são os assaltantes. O que a jornalista deveria ter feito era: ter perguntado à GNR de Benavente quando é que esse senhor que presta declarações surgiu no local da noite do crime. Já a noite ia alta quando, todos os senhores que agora aparecem a falar, se abeiraram da estação de serviço. Não havia luz. A PJ não deixava ninguém aproximar-se. Até a família, o que sabe é do que ouviu de outros populares.
Porque é que a jornalista não escreveu a parte inicial do texto como o fez no fim? É que ela no fim comprova o que todos sabemos, a Xana não abre a porta a ninguém e recusa-se a falar. Agora colocar um senhor que não merece crédito algum a falar alarvidades que qualquer pessoa aqui poderia fazer, é lamentável. Faz-me confusão que a jornalista coloque as declarações de alguém sem que perceba a sua veracidade, porque senão está simplesmente a veicular uma acusação. E será que não cabia à jornalista perceber o que deve ser publicado, depois de uma investigação rigorosa? Sim, talvez. Todavia, a jornalista optou por fazer um trabalho mais rápido e despachar serviço falando com um senhor que nada viu. Ainda bem que não falou com um outro vizinho nosso que até pensou que os tiros era da festa de Benavente.

Cumprimentos

J.....

SEGUNDO E-MAIL DO LEITOR

-----Original Message-----
Sent: segunda-feira, 9 de Abril de 2007 11:29
To: Webmaster; Provedor (DN/de) Subject:

Bom dia,
Estimado provedor acabei de lhe enviar um e-mail onde descrevia a minha revolta para com um mau trabalho - considero - da jornalista S.....
Mas depois de ter enviado, ainda estive a ler o Público. E qual não é o meu espanto quando a mesma personagem que presta declarações à jornalista e que ela aproveita para dar como garantido logo no começo do texto, diz ao Público que se levanta às 5 da manhã e que já estava deitado. Eu nem precisaria que ele prestasse esta declaração ao Público, porque toda a gente sabe em Benavente que esse senhor é funcionário municipal. O que me choca é que, como disse no texto que enviei, a jornalista não tenha visto que era uma grande mentira ele ter assistido ao acidente quando nada se vê atrás do mato da ETC.
Se, depois de enviar o primeiro e-mail, ainda fiquei a pensar até que ponto a jornalista teria sido isenta, agora, depois de ter lido o Público, parece-me que: ou a jornalista associou a declaração a um senhor tendo se enganado no nome (eu espero que sim) ou então não respeita o título que tem e nem sequer se deu ao trabalho de fazer a contradita, que neste caso passava talvez não por ouvir uma outra pessoa - que não teria assistido como todos os outros que agora falam - mas, por visitar o local e colocar-se na pele da Eduarda e dos assaltantes e perceber a trajectória.

Sem mais,

J......

PS: em anexo, o e-mail que já havia enviado


-----Original Message-----
From: Provedor (DN/de)
Sent: Wed 11-04-2007 14:53



EMAIL DO PROVEDOR PARA O LEITOR
Caro leitor

Vou pedir esclarecimentos, tal como exige o Estatuto de provedor dos leitores.

"O provedor dos leitores exerce a sua função crítica através da secção semanal que publica no Diário de Notícias, da inserção pontual de textos (sempre que a importância do assunto o justifique) e de recomendações internas dirigidas à Direcção e ao Conselho de Redacção.

4. No exercício das suas funções, o provedor dos leitores pode solicitar à Administração, à Direcção, aos editores, aos jornalistas e ao Conselho de Redacção esclarecimentos sobre questões com incidência ética e deontológica, os quais devem ser prestadas, por escrito, no prazo de 72 horas.

4.1 As tomadas de posição do provedor dos leitores sobre textos assinados por jornalistas devem, sempre que possível, ser precedidas de esclarecimento prévio do respectivo autor ou, na ausência deste, do editor da secção."

Obrigado pela atenção que dá ao jornal.

Peço desculpa pelo atraso da minha resposta.

Melhores Cumprimentos

José Carlos Abrantes

E-MAIL DO PROVEDOR PARA O JORNAL

-----Original Message-----
From: Provedor (DN/de)
Sent: Wed 11-04-2007 15:03
To: Director (DN/de)
Cc: S.....
Subject:

Caro Director
Cara editora
Cara jornalista

Junto envio questões de um leitor referente a um trabalho publicado recentemente.
Agradeço os comentários que forem considerados pertinentes crónica de hoje.

Melhores cumprimentos

José Carlos Abrantes



----Original Message-----
From: S...
Sent: Thu 12-04-2007 13:52
To: Provedor (DN/de); e outros
Subject: Resposta ao Sr. Provedor


RESPOSTA DA JORNALISTA
Exmo. Sr. Provedor

Em resposta às questões suscitadas pelo leitor J...., que o senhor provedor do DN teve a gentileza de me enviar, cumpre-me dizer o seguinte:

1. Estive dois dias seguidos em Benavente, onde contactei com as autoridades policiais, ao contrário do que parece inferir-se da carta do leitor, e com vários populares que se afirmaram testemunhas de vários factos relativos com o assalto e subsequente assassinato ali verificados. Como a generalidade dos jornalistas presentes no local, foi com base nesses relatos - de autoridades e populares - que escrevi os dois textos publicados na edições do DN de 8 e de 9 de Abril.

2. Como bem se calcula, até pela missão que as forças de segurança ali desempenhavam nesses momentos, não era possível questionar as autoridades sobre a legitimidade e o “pedigree” de todos e cada um desses testemunhos.

3. Tive, pois, o cuidado de identificar quem foi citado no texto como testemunha, responsabilizando-o assim por essas afirmações. Houve, pois, no caso concreto, identificação da fonte.

4. Ao contrário do que o leitor - a cujo transtorno sou obviamente sensível - afirma, tive a oportunidade de constatar que do local da residência da testemunha citada eram visíveis partes importantes do cenário onde se verificou o crime.

5. Julgo, pois, num cenário e num ambiente que, como se calcula, não é propriamente fácil, ter cumprido as regras jornalísticas e ter desempenhado a minha missão.

Grata pela atenção, subscrevo-me, com consideração
S...


COMENTÁRIO DO PROVEDOR



Este comentário da jornalista descreve, tal como acentuo na crónica de hoje a propósito de outro caso, as condições precárias da investigação jornalística. [Estive] “com vários populares que se afirmaram testemunhas de vários factos relativos com o assalto e subsequente assassinato ali verificados. “ A expressão “que se afirmaram” mostra bem que a jornalista tem consciência de não ter estado forçosamente com testemunhas do assassinato. São pessoas que se afirmam testemunhas sobre vários factos. Ou seja, também os factos são hipóteses a desenvolver nos dias seguintes. Talvez esta falta de garantias devesse ter sido mais sublinhada no texto para que os leitores pudessem ser menos expectantes. Por outro lado, a jornalista contactou as autoridades policiais: mas sabe-se como, em tais casos, estas são parcas em divulgar informações, se as têm.

A jornalista poderia ter usado um termo mais apropriado do que o de pedigree para qualificar a legitimidade dos testemunhos que são credíveis, pertinentes ou verdadeiros. É certo que esta expressão é usada, em sentido figurado, na linguagem corrente. Porém, sendo pouco adaptada, não se vê motivo para que seja consagrada no campo jornalístico.

O leitor, directamente implicado e emocionado com o acontecimento vivido, condena veemente a jornalista. Em rigor, julga com severidade excessiva.

segunda-feira, abril 16, 2007

CAFÉ PHILO

DIA 18 de ABRIL às 21H00
Na Cafetaria do INSTITUTO FRANCO-PORTUGUÊS
TEMA: A FELICIDADE / LE BONHEUR

Debate em francês e português animado por

Jean-Yves Mercury
Dominique Mortiaux
Nuno Nabais



Um novo espaço/tempo de reflexão e debate, O Café Philo, abre a 18 de Abril às 21h00 na Cafetaria do Instituto Franco-Português (Av. Luís Bívar, 91 em Lisboa).
Trata-se duma especificidade francesa, herança longínqua dos cafés literários do século XVIII e que, no decorrer dos anos 90, conheceu em França, um verdadeiro renascimento e até um entusiasmo e « uma moda ».
Então, de que se trata ? Simplesmente de propôr um assunto para debate e discussão sobre diversos temas abertos. O primeiro será a questão da felicidade. Não se trata de conferências ou de comunicações na presença de um público, mas sim de um debate para confrontar os nossos pensamentos, ideias e reacções! A escolha de um café é neste aspecto reveladora, pois não corresponde a nenhum lugar institucional. Esperamos assim que a filosofia saia um pouco « de casa”, dos seus lugares reservados, para ir « ao café » ao encontro da opinião. Temos que nos lembrar de que a filosofia ocidental fez de Sócrates o seu pai e este nunca escreveu uma só linha ao afirmar que o lugar exacto do questionar filosófico era o diálogo, o confronto ao vivo das opiniões e dos pensamentos, nada sendo igual à ductilidade da palavra falada.
Eis o que nos oferece o IFP, na quarta-feira 18 de Abril, às 21h. Será o primeiro de um encontro que terá lugar uma vez por mês. Nuno Nabais, Dominique Mortiaux e Jean-Yves Mercury serão os animadores.


A Entrada é livre

Recebido de Margarida Antunes da Silva
Attachée de Presse/Relations Publiques
Instituto Franco-Português
Av. Luís Bívar, 91
1050-143 Lisboa
Tel: 21 311 14 27 Fax: 21 311 14 63
margarida.silva@ifp-lisboa.com

sábado, abril 14, 2007

A TV e a OTA

"A ENTREVISTA DO PRIMEIRO MINISTRO, OS SEUS COMENTADORES E A OTA

O que me pareceu extraordinário, ontem, na Televisão, não foi a entrevista do Primeiro Ministro, mas os comentadores que se seguiram (em vários programas) que se mostraram absolutamente incapazes de se interessarem pelos problemas com real importância para o País, como é o caso do problema do aeroporto da Ota, referido pelo Primeiro Ministro.

É muito dificil esclarecer o País sobre este e outros problemas, quando o espaço televisivo é ocupado por comentadores deste tipo.

No caso do aeroporto da Ota, acho que o Primeiro Ministro não tem razão e está mal informado. Os estudos para construir este aeroporto estão extraordináriamente atrasados e ninguém pede que parem. Pelo contrário, devem ser acelerados para podermos ver dum modo claro e convincente , dentro de um ano ou dois, se este aeroporto deve ou não ser construido.

O desejavel, e alguns se popõem fazer, é estudar em paralelo outras localizações que possam servir como elementos de comparação e, sobretudo, que nos evitem a voltar à estaca zero se o aeroporto da Ota vier a ser inviabilizado, como é possivel.

Que a NAER não estude outras localizações, ocupada e atrasada como está no estudo do aeroporto da Ota, é normal e mesmo desejavel para não se trasar mais. O que não pode é olhar com hostilidade e desejar que outras entidades: Universidades, Câmaras, Ordens, entidades privadas e simples cidadãos, fiquem parados, sem nada criticar, obrigados a aceitar as soluções únicas propostas por ela, NAER, por piores que elas sejam.

Permito-me pedir à Comunicação Social que dê alguma atenção a cartas como a que se segue, que ontem enviei ao Engenheiro Artur Ravara, que ilustra o que acabei de escrever. (12 de Abril de 2007)

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Lisboa, 11 de Abril de 2007

Caro Engenheiro Artur Ravara,

A sua intervenção na televisão na passada semana esclareceu-me sobre um problema, mas levantou-me um outro.

Na página 8 do EPIA relativo ao aeroporto da Ota, feito em 1999, vem escrito:

" Os trabalhos preliminares incluirão o desvio, ou canalização, da ribeira de Alvarinho, cuja bacia hidrográfica a montante da localização tem cerca de mil hectares …"

Quando li estas linhas e olhei a carta topográfica pensei que a ribeira do Alvarinho teria de ser canalizada dada a manifesta dificuldade (elevado custo) em a desviar..

Mas, depois, inteirei-me da necessidade de consolidar os terrenos argilosos do leito desta ribeira antes de sobre eles poder ser construida a conduta da canalização.

Surgiu-me assim um problema: como construir a conduta sobre terrenos que previamente têm de ser consolidados operação para a qual convem não estarem alagados, o que só se consegue depois da conduta feita ? Fiquei sem saber como é que os engenheiros civis o iriam resolver.

Na sua intervenção televisiva na semana passada deu-me a resposta:

Está previsto não canalizar a ribeira do Alvarinho sobre o leito inicial, mas desvia-la para o Rio de Alenquer. Fui ver numa carta topográfica. Para fazer este desvio é necessário um tunel com cerca de 4 km. Informei-me junto de especialistas que disseram-me que este tunel, com duas frentes de trabalho, demoraria a construir cerca de 2 anos e meio.

Surge-me assim um outro problema: a operação de desvio da ribeira tem de anteceder a operação de consolidação dos terrenos, ou as duas podem ser feitas em simultâneo?

Esta informação é necessária para fazer um PERT para avaliar a duração dos referidos trabalhos preliminares que, no primeiro caso, não durarão menos de 5 anos.

Gostaria conhecer a sua opinião sobre o assunto e, no caso de estar enganado, peço-lhe que me corrija.

A impressão que tenho é a de que ainda não se sabe bem o que é que se pretende construir.

Gostaria de ver uma planta, por exemplo, na escala 1/50.000, já algo definitiva, do aeroporto projectado com os seus acessos rodo e ferroviários, para o poder comparar com outros similares e ter uma ideia do modo como vai funcionar. Em vez disso, vejo na imprensa esboços de um aeroporto, umas vezes com os edifícios principais construidos no meio, outras vezes atravessado ao centro por uma linha TGV e uma via rápida. Os sites do MOPTC e da NAER não me esclarecem sobre esta questão.

Gostaria também de ver o projecto proposto pela "Parsons" para consolidar os terrenos do leito das ribeiras apreciado por especialistas portugueses, alguns com uma muito razoavel experiência na matéria. E gostaria também de ouvir a opinião da "Parsons", que fez o estudo que lhe encomendaram, e também a dos "Aeroports de Paris" sobre se, em face das dificuldades encontradas na Ota, aconselham a não procurar uma outra localização para o NAL, que mais não seja para poderem ser feitas comparações.

São questões para as quais , penso, com tempo, serão dadas algumas respostas. Mas há, neste momento, uma outra pergunta, esta quase sentimental, que gostaria de lhe fazer.

Para fazer uma obra como o aeroporto da Ota é necessária muita maquinaria. Quando é que os engenheiros civis terão uma ideia razoavelmente precisa das máquinas necessárias para construir o NAL na Ota? Eu sou engenheiro mecânico e comecei a trabalhar, há 50 anos, no projecto de maquinas para serem usadas nas grandes obras de construção civil, na MAGUE que foi pioneira no assunto e depois chegou a construir os maiores pórticos do mundo. Estou certo que a MAGUE, se tivesse continuado, estaria agora capaz de fabricar muitas das máquinas necessárias para construir o aeroporto da Ota, ou qualquer outro. Há actualmente outras empresas portuguesas com condições para o fazer? Estão elas a ser estão alertadas para o assunto?

Penso que, directa ou indirectamente, na sequência da sua intervenção televisiva e deste email poderemos trocar opiniões sobre estes assuntos.

Com os meus melhores cumprimentos subscrevo-me

António Brotas"

segunda-feira, abril 02, 2007

Depoimento de ROGÉRIO SANTOS

"No meu entender, não há manipulação das capas dos dois jornais.
No caso de 11 de Fevereiro, existe apenas um exemplo de má concepção estética da capa. Eu escrevi isso na altura no meu blogue (e tive uma resposta imediata de um responsável pela edição contra a minha interpretação). Comprar um jornal apenas com aquela informação na capa não me parece particularmente feliz. Os media, em especial os jornais de papel, precisam de ser apelativos - mas não sensacionalistas - no modo como veiculam a informação sobre os acontecimentos de maior relevo. Uma capa com letras a negro e em tamanho garrafal, com pouco dinamismo em toda a página (dois quadrados simulando o voto no sim e no não no referendo), orientada para um só acontecimento - e ainda por cima conhecido de toda a gente e não veiculando informação dramática ou catastrófica ou de ruptura - não venderá muito. O rigor e a isenção precisam de ser acompanhados pela alegria com que se olha uma página - vender um jornal é tão significativo como ser objectivo e ter uma informação com acurácia.
Retirando o lado menos estético, o jornal tomou o partido pela responsabilidade e pelo apelo à participação cívica. Foi, talvez, o melhor jornal do dia, nesse sentido. Nada no texto pressupõe um apelo ao voto no sim ou no não. A posição correcta da direcção do jornal continuou no dia seguinte ao da votação: usando um mesmo tipo de grafismo, o jornal informou os resultados. Mas, a meu ver, escolheu de novo um grafismo errado, até porque toda a gente já sabia dos resultados através da televisão, nomeadamente.
A diferença entre as capas da gestão António José Teixeira e da actual direcção é que esta monta a primeira página como um mosaico, a exemplo da internet, chamando a atenção do leitor para múltiplas notícias no interior do jornal.
O título sobre o caso da criança E. (Esmeralda) pode ter sido levemente empolado, no sentido do sensacionalismo (ou dramatização), pois joga com sentimentos que estavam à flor da pele (a pré-campanha para o referendo do aborto estava já no ar; o tema é de corte cultural, quase de ruptura entre os que defendem o aborto e os que condenam).
Num e noutro caso, não me parece que a posição do leitor seja muito defensável. As capas são resultado de decisões editoriais e da direcção, à hora de fecho da edição, para a qual a redacção no seu conjunto pode não ter influência. As peças já foram escritas, os jornalistas já se foram embora nesse dia, quando a capa é decidida e fechada. É certo que a capa é a sala de entrada de um jornal, a qual nos leva à decisão de comprar ou não comprar. Mas dizer que a isenção e independência dos jornalistas é posta em causa é uma afirmação gratuita de um leitor. Felizmente, nós sabemos que são os jornalistas e os editores, pois eles são escrutinados todos os dias pelo seu trabalho. Infelizmente, não conhecemos um qualquer leitor que escreve - neste caso, de modo gratuito e superficial, digo eu. O que significa que um juízo de valor de um leitor que escreve ao provedor também precisa de ser ponderado."

Rogério Santos

ESTUDO SOBRE A EDIÇÃO ONLINE DO DN

EDIÇÃO ONLINE DO DIÁRIO DE NOTÍCIAS
- Contributos para uma reflexão

Ricardo Nunes
Docente Ensino Superior e Jornalista

Resumo
Com o presente texto, “Edição Online do Diário de Notícias – contributos para uma reflexão”, pretende-se sistematizar um conjunto de dados sobre o trabalho realizado pelo Diário de Notícias, na sua versão digital, de acordo com várias perspectivas de análise: organizacional, informativa, conteúdos, serviços associados, etc., procurando contribuir com uma reflexão critica sobre o produto apresentado aos consumidores finais. O documento foi construído numa dupla interpretação do autor académico e autor jornalista, procurando assim enriquecer o seu resultado final.

Pontos em análise
O texto que sucintamente se apresenta foi organizado em três momentos fundamentais: (1) Alguns tópicos de enquadramento; (2) Edição online do Diário de Notícias – análise de vários indicadores; (3) Pistas para não concluir. Proceder-se-á ao enquadramento conceptual sobre o assunto em análise, seguidamente apresentam-se os dados sobre a edição online do DN, terminando com algumas sugestões teórico-práticas sobre o que se entende ser um conjunto de orientações estratégicas para a referida produção digital. Para o efeito, recorrer-se-á a um breve, mas focado, levantamento bibliográfico e à análise pontual do site do Diário de Notícias, num cruzamento com a componente conceptual de especialidade.

(1) Alguns tópicos de enquadramento
A breve, mas rica e complexa, existência da imprensa no universo online, tem posicionado vários autores num conjunto de interpretações sobre o que significa estar na net, produzir para a net, afirmar uma edição através da plataforma digital.

Depois da implantação e generalização, quer da Internet, quer dos seus caminhos virtuais através da www, a segunda metade dos anos 90 constitui-se como o momento de afirmação crescente dos media tradicionais no formato digital. Não só a rede se torna mais popular, como a curiosidade de jornalistas e empresários conduz ao aparecimento de inúmeras edições online e, nalguns casos, exclusivamente produzidas em formato digital. A sedução do jornalismo pela Internet enfrenta uma dúvida existencial, já que o sucesso e a aceitação do modelo vigente enfrenta agora o desafio de um novo suporte, logo revestida de um conjunto de exigências ao nível da produção e do consumo.

Esta é ainda uma fase caracterizada pela (1) transposição literal dos conteúdos desenvolvidos na edição impressa para a versão online. O shovelware, como ficou conhecido, vinca a grande maioria das experiências mediáticas que davam, na altura, os primeiros passos. O experimentalismo, o desconhecimento e, sobretudo, a falta de consciência de que o meio emergente tinha personalidade própria marcaram grande parte dos primeiros projectos que se resumiram a transferência de dados, do tipo corta e cola…. De resto, uma situação que ainda hoje continua a marcar muitas das edições online, um pouco por todo o planeta.

Ora, tendo-se alterado os paradigmas da comunicação, forçoso será pensar que esses mesmos modelos progressivamente se instalem em terreno permeável. Assim, da já referida transposição do impresso ao digital, chegamos a uma fase intermédia: (2) o Jornalismo Assistido por Computador. Como o nome indica, não constitui uma experiência digital por excelência na assumpção de ferramentas, conceitos e cultura associada ao multimédia, mas uma forma de coadjuvar o acto de fazer jornalismo. A rede instala-se como uma fonte adicional de informação, ao serviço das redacções.

Os desafios do multimédia vieram, de forma avassaladora, imprimir uma reformatação de procedimentos, bem como a disponibilização de ferramentas e conceitos adjacentes sem precedentes. O léxico no campo da comunicação como que explodiu em muito pouco tempo e, consequentemente, surgiram novos fenómenos e definições: glocalização, interface, comunicação mediada por computador, downloads, multimédia, weblogs, interacção, chat’s, fórum, world wide web, mailing list, browser, portal, ciberespaço, e-mail, newsgroup, ciberleitura, hipertexto, largura de banda, webwriting, cibercultura, cookies, wikkies. Eis-nos chegados à experiência do (3) Jornalismo Online.

Que mudanças implicou a instalação do paradigma? A montante e a jusante o jornalismo não se altera na essência dos princípios fundamentais, mas há um novo e revolucionário modo de pensar o jornalismo e a informação baseados nos seus modos de busca, tratamento e síntese. De modo abreviado, podemos dizer que pensar jornalismo online significa ter presente, entre outros, os seguintes aspectos:

a) Reconfiguração das redacções (profissionais com novas competências técnicas); autonomia e/ou integração de redacções clássicas e digitais;
b) Exercício de um jornalismo assente em novas formas de comunicação (multimédia, hipertexto, instantaneidade, personalização, interactividade, universalidade, periodicidade; distribuição; documentação; arquivo, etc.)
c) Fruição, ao nível do consumo, de novos e exigentes públicos.

(2) Edição online do Diário de Notícias – análise de vários indicadores

Analisar, em termos práticos, o site do Diário de Notícias é ter por princípios orientadores o que teóricos e investigadores têm publicado sobre este assunto, as experiências dianteiras de alguns órgãos de comunicação social e a realidade concreta da edição noticiosa digital do DN.

Embora tenha sido um dos jornais pioneiros nas lides internéticas (Dezembro de 1995) em Portugal, o Diário de Notícias na versão digital acusa hoje algumas fragilidades de forma e conteúdo quando comparada, em termos nacionais, com o jornal O Público, uma das referências identificadas por académicos em estudos sobre a informação online.

Assim, de modo esquemático, passamos a apresentar algumas considerações sobre aspectos organizativos, editoriais, de serviços associados, etc., que melhor traduzem as características deste produto:

a) Enquadramento empresarial

➢ Revela convergência da propriedade dos meios a que pertence, o grupo Lusomundo PT, nomeadamente pelas ligações com o Sapo e o colectivo de órgãos de informação parentais;

➢ Recorre à produção informativa da TSF online, rentabilizando sinergias de grupo, não apostando num serviço próprio de notícias de última hora;


b) Conteúdos

➢ Disponibiliza uma parte da informação produzida em papel (entre os 70% e os 80%). São publicadas na íntegra as notícias principais de cada secção, sendo excluídas as breves e as que compõem os cabeçalhos das páginas;

➢ Apresenta fotografias e ilustrações que, em sintonia com os títulos, constituem hiperligações para o interior das notícias, mas reduzidas na edição online (entre 39% a 43% das notícias surgem acompanhadas de fotografia, quando na edição impressa esse valor se situa entre os 44% e os 51%);

➢ É frequente o texto remeter o leitor para uma chamada de atenção “Ver caixa”, não havendo nenhuma ligação para tal destino. Por vezes, a referida “caixa” surge em rodapé, remetendo para outro texto sobre o mesmo assunto ou conexo, mas sem referência explícita ao momento em que o leitor é convocado aquando da leitura da notícia principal;

➢ A (quase) totalidade dos textos são escritos para a sua forma impressa, sendo a versão digital a transposição literal das notícias, não aproveitando os recursos multimédia, nem mesmo o arquivo próprio sobre o mesmo assunto;

➢ A edição online do DN permite o acesso às últimas 25 edições publicadas. De modo absolutamente livre (sem registo do utilizador, sem pagamento prévio) é possível aceder quase a um mês de edições, sem restrições de consulta;


c) Serviços

➢ O site possibilita “Pesquisa” interna através de um motor específico (Sapo) que, de acordo com os descritores apresentados, fornece os resultados existentes;

➢ Ausência de um espaço de debate, tipo Chat ou Fórum. Regista-se a existência de um inquérito temático, que muda de acordo com a actualidade, mas sem aproveitamento prático na produção informativa. Este Inquérito não permite ter conhecimento prévio do sentido da votação, surgindo, após o voto, um quadro com os resultados acumulados até ao momento. Nesse quadro dá-se a conhecer o dia, mês, ano e hora em que foi activado, total de respondentes em número absoluto e percentual. Estes dados são acompanhados de um gráfico de leitura fácil;

➢ O site disponibiliza ligações para os seguintes serviços:

- Na zona de “Classificados” (colocação e pesquisa de anúncios), de acesso a utilizadores previamente registados, possibilita-se a consulta através de pesquisa orientada pelas principais classes de produtos/serviços existentes: imobiliária, emprego, veículos, relax, diversos e ensino). Este serviço está associado a publicações do grupo empresarial (24 Horas, Tal & Qual, Jornal de Notícias e Ocasião). Admite pesquisa interna;

- Assumindo uma lógica de grupo empresarial, a “Loja Global Notícias” permite a aquisição de várias publicações divididas pelas categorias de livros, música, vídeo, jogos, utilidades, numismática, CDI e diversos. A categoria CDI, que não apresenta explicação para a sigla, admite a possibilidade de acesso aos Textos em Arquivo, mediante pagamento, mas apenas dos textos publicados no Jornal de Notícias. Ainda nesta categoria é possível encomendar a Primeira Página do JN. “Surpreenda um amigo, oferecendo-lhe a primeira página do dia em que ele nasceu, em papel normal, do tipo jornal ou de embrulho e em formato A3 ou A2”, diz o site, referindo-se exclusivamente à edição do Jornal de Notícias;

- Através do Cartão Global Notícias abre-se a possibilidade de amealhar pontos através da consulta das várias editorias do site, mediante inscrição prévia e validação com número de cartão e password;

- “O que fazer para 2007 ser um ano melhor?” pergunta o jornal nesta categoria denominada Ideias para 2007 – têm a palavra os leitores. Logo a seguir deixa o repto “Este é o desafio que o DN faz aos leitores. No início do ano publicaremos as suas opiniões.
Todas as análises serão bem-vindas, todas as temáticas estão em aberto, das que preocupam o planeta até às da aldeia mais isolada de Portugal, da sua rua, escola ou empresa, da sua profissão, emprego ou passatempo.
Escreva e envie (máximo 1200 caracteres)”. Este é um dos raros desafios lançados ao leitor, estimulando a comunicação com o jornal;

- O rectângulo dedicado ao “Provedor do Leitor” remete para os textos do Provedor, sem qualquer enquadramento sobre a sua actividade, textos de arquivo ou regulamento das funções exercidas. Os textos do Provedor para além da identificação do seu autor, são acompanhados de fotografia. Ao lado encontra-se o “O Cartoon de Bandeira”, reproduzindo a “tira” da edição impressa, ausente de qualquer texto de enquadramento. O espaço do “DN Jovem”, contemplando a participação dos mais novos, surge numa página ausente de dinamismo, surpresa e sedução. O “Curso de Línguas Muzzy”, ausente da loja virtual, tem direito a um espaço próprio, procurando cativar os leitores a adquirir um curso multilínguas, um evidente produto de marketing empresarial.

Face ao levantamento efectuado tendo por base o mapeamento feito ao site, importa fixar alguns pontos fundamentais para discussão, tendo em conta o que se entende como características do paradigma digital associado à produção jornalística online. Assim, e de forma abreviada, sintetizam-se algumas ideias chave do novo processo de construção informativa, contemplando elementos de arquitectura conceptual do site, Organização da redacção, conteúdos e formas complementares de comunicação.

a) Arquitectura conceptual do site
- A primeira página não permite a visualização total, num claro prejuízo da noção de conjunto da montra informativa;
- A “home” segue uma lógica simples, intuitiva mas pouca sedutora no grafismo e nas apostas editoriais;
- Mostra conteúdos em dois níveis de apresentação: “Destaques” (até 3 notícias) e “DN Edição Papel” (índice correspondente à edição impressa);
- Ausência de factor surpresa, estímulo adicional, envolvimento amigável;
- “Últimas notícias” ou “Última hora” remetido para a edição online da TSF, não correspondendo por isso a apostas editoriais próprias do estilo DN;
- Arquivo disponível apenas em relação aos últimos 25 dias;
- Edição PDF não contemplada;
- Ausência de estratégia comercial que rentabilize conteúdos (imediatos de última hora, dossiês e arquivo);
- A personalização e/ou individualização dos conteúdos, uma das bandeiras das edições online, não surge como uma possibilidade de fidelização dos leitores;
- Globalmente desadequado face às técnicas existentes desta plataforma.

b) Organização da redacção
- Inexistência de redacção própria, sendo o trabalho jornalístico concebido pela estrutura do DN versão papel, sendo os conteúdos conteúdos introduzidos e actualizados durante a madrugada por um jornalista do serviço de agenda.

c) Conteúdos
- Mantém uma abordagem absolutamente lateral ao actual momento da comunicação digital jornalística, apresentando no site a transposição das principais notícias da versão impressa;
- Ausência de infografias como complemento visual às notícias, hiperligações para outras notícias e/ou para sites específicos;
- Ausência de dossiês temáticos;
- Ausência dos suplementos semanais;
- Globalmente desadequado face às técnicas existentes desta plataforma.

d) Formas complementares de comunicação
- Inexistência de uma agenda cultural ou guia temático de lazer;
- Inexistência de projectos de ligação à comunidade (ex. Público na Escola);
- Inexistência de ferramentas interactivas de comunicação directa (blogues, chats, fóruns) e indirecta (podcasts, stream, rss, feeds, vídeos, wap, sms, mms);
- Inexistência de entretenimento;
- Globalmente desadequado face às técnicas existentes desta plataforma.

(3) Pistas para não concluir
Constatam os teóricos e comprovam as experiências jornalísticas que a Internet, progressivamente, tem alterado a configuração das redacções, estimulado novas competências técnicas, rotinizado novas práticas na tribo jornalística, estimulado conteúdos multimédia, formas sedutoras de captar velhos e novos públicos construtores de informação.

Pelo exposto anteriormente, e apesar de 10 anos passados sobre o jornalismo online em Portugal, o Diário de Notícias está longe de se encaixar naquilo que John Pavlik descreve como sendo a terceira fase da evolução do paradigma digital associado ao jornalismo – no caso em apreço, a existência de uma edição impressa e, num suporte binário, um jornal que apresente conteúdos pensados, escritos e apresentados para a net.

O Diário de Notícias manifesta falta de estratégia para o dispositivo online, traduzida no débil investimento técnico e humano na sua edição digital, revelador de uma estratégia editorial que não tem depositado neste suporte muita da sua confiança, entusiasmo e vontade. O levantamento realizado repete com frequência os vocábulos, “inexistência”, “ausência” ou “desadequação”, revelando ser este um site palidamente conforme o conhecimento e as técnicas existentes neste domínio. Uma leitura mais fina desta realidade pressupõe um conhecimento interno das lógicas que se encontram associadas ao nascimento e manutenção da página do DN, realidade de todo imperceptível na visão centrada no ecrã virtual das notícias.

Um outro desafio, bem mais ambicioso teria por orientação dar resposta a várias questões como as que, a título de exemplo, seguidamente se apresentam: “ Qual as função da página? Como é que os vários tipos de media se posicionam na Internet e de que forma rentabilizam as suas potencialidades e especificidades? Que diferenças e semelhanças revelam? Quem são os principais autores envolvidos? Que estratégias de rendabilidade económica desenvolvem? Que tipo de identidade descrevem?” (Soares, 2006)

Não cabe nesta reflexão o olhar aprofundado de quem se encontra, externamente, a ler um produto chamado http://dn.sapo.pt/. A leitura, a distância, permite desde já identificar um conjunto de aspectos positivos e outros carentes de intervenção urgente, caso seja esse o desafio pretendido de quem gere os destinos do Diário de Notícias. Se assim não for o entendimento, certo será que os estudos académicos apontem, infelizmente, a concorrência (O Público online) como o melhor produto do género elaborado em Portugal.

Sobre o autor
Jornalista, Doutorando da Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, especialização em Ciências da Comunicação “Audiovisuais e Novos Media”, Mestre em Ciências da Comunicação UNL-FCSH, especialização em “Audiovisuais, Multimédia e Interactividade”, docente da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal.



Bibliografia

BASTOS, Helder (2000)
Jornalismo Electrónico – Internet e Reconfiguração de Práticas nas Redacções, Coimbra: Editorial Minerva.

CANAVILHAS, João (2004)
A Internet como Memória, in http://www.bocc.ubi.pt/pag/canavilhas-joao-internet-como-memoria.html

NUNES, Ricardo (2000)
Notícia Online – Implicações da Linguagem Multimédia no Discurso Jornalístico (Dissertação de mestrado – UNL/FCSH), Lisboa, 1º Vol..

PAVLIK, John V. (1997)
“The Future of online journalism: a guide to who’s doing what”. In Columbia Journalism Review, Julho/Agosto (http://wwwcjr.org/html97 07 08 online.html).

SOARES, Tânia de Morais Soares (2006)
Cibermedia: os meios de comunicação social portugueses online, Lisboa: Escolar Editora.

SILVA, António José Lopes da (2006)
Os diários generalistas portugueses em papel e online. Lisboa: Livros Horizonte.