domingo, outubro 08, 2006

OLHAR PARA O JORNALISMO CÍVICO

José Carlos Abrantes

publicado na coluna do Provedor dos Leitores, 18/10/2004, no Diário de Notícias


“Há jornalistas que não sabem o que são as ONGs” (Organizações Não Governamentais). Esta afirmação de Francisco Sarsfield Cabral estimulou-me a questionar o Director de Informação da Rádio Renascença e também Cáceres Monteiro, director da Visão, num debate recente organizado pela revista Fórum DC (D de desenvolvimento e C de Cooperação). Perguntei a ambos se os jornalistas teriam alguma informação e oportunidades de reflexão sobre jornalismo cívico, assunto que havia sido introduzido por uma conferência de Jan Schaffer, directora executiva do Pew Center for Civic Journalism (http://www.pewcenter.org/). A resposta de ambos, negativa quanto à difusão e conhecimento deste tipo de jornalismo nas redacções, motivou a crónica de hoje.
O jornalismo cívico é um movimento que irrompeu nos EUA na década de 90. Uma das razões da sua aparição é a baixa credibilidade dos media na opinião pública americana. Numa sondagem citada por Nelson Traquina (ver Bloco Notas) realizada nos EUA a maioria (63%) dos inquiridos afirmava que os media são frequentemente influenciados por pessoas e organizações poderosas. Essas influências têm sido infelizmente visíveis em Portugal ao longo dos anos, na ditadura de uma forma aberta e sistemática, depois nalguns governos do pós 25 de Abril, tendo-se tornado agora muito cristalina no grave conflito aberto pelas pressões que levaram à saída de Marcelo Rebelo de Sousa da TVI. A irrupção do jornalismo cívico está ligada à recuperação da credibilidade mas também à concepção que o jornalismo deveria promover o desenvolvimento da cidadania. Mário Mesquita considera que na origem desta teorização se encontram as teorias do “comunitarismo” e ainda “a crítica ao comportamento dos jornalistas perante a política e os políticos, entendida como uma atitude de “cepticismo” sistemático, susceptível de contribuir para o desinteresse dos cidadãos pela vida pública."
Quais são os traços distintivos do jornalismo cívico?
Um dos mais consensuais será a preocupação de fundo com a cidadania e com as comunidades. Nesta linha caberia ao jornalismo cívico, segundo David Merrit, um dos seus promotores, uma importante contribuição para a revitalização da vida pública. Alguns vincaram a ligação actual do jornalismo a uma prática de acompanhamento das elites, por exemplo, com o correlativo abandono dos outros cidadãos e das temáticas ligadas à vida das comunidades. Ilustrativo deste aspecto podem ser os projectos desenvolvidos pelo jornal Wichita Eagle. Em 1990, a partir de sondagens e grupos de discussão (focus grupos) o jornal, associado a uma rádio e a uma televisão, fez a cobertura de uma campanha eleitoral a partir das questões identificadas pelos eleitores e não, como é tradicional, a partir dos temas sugeridos pelos candidatos. O jornal identificou assim a “agenda dos cidadãos” que serviu depois de base para as peças jornalísticas o que altera a tradicional cobertura adversarial da luta política.
O terreno eleitoral foi assim o domínio de origem do jornalismo cívico. Depois, numa primeira fase, os projectos envolveram os cidadãos na deliberação colectiva sobre problemas gerais das comunidades e, numa segunda fase, actuaram em questões sociais específicas como as questões raciais, os problemas da imigração e da juventude.
Esta corrente de jornalismo não deixa apenas para a responsabilidade dos políticos a qualidade da vida cívica. Tem o mérito de tornar os jornalistas co-actores na melhoria da democracia, fazendo nisso a ponte com o outro vértice do triângulo: os cidadãos. O abandono do jornalista da posição de observador para a posição participante é uma das críticas mais tecidas ao jornalismo cívico pelo defensores das práticas usuais de jornalismo.
Será o jornalismo cívico uma panaceia universal para curar os males das doenças graves do jornalismo de hoje? Não é seguramente, nem tal panaceia existirá. Mas poderá ser um fermento inovador em tempo de crise(s): crise na credibilidade, crise nas vendas, crise na participação cívica nos actos eleitorais e na vida comunitária. Haverá ainda quem pense que as pequenas coisas não podem ser motor de grandes transformações?







BLOCO NOTAS
Investigação  Uma investigação sobre dez anos de jornalismo cívico pode ser consultada no site do Pew Center for Civic Journalism (http://www.pewcenter.org/doingcj/spotlight/index.php). A investigação descreve os projectos em actividade e extrai algumas linhas de força desses anos de intervenção. O estudo conclui que, no período analisado, mais de 300 jornais americanos se envolveram em projectos de jornalismo cívico (um quinto do total). A investigação dá conta da consolidação de técnicas utilizadas, como os grupos de discussão e os fóruns colectivos de decisão, e refere também o aparecimento de projectos com interactividade on-line a partir de 1998. Uma das descobertas quantificadas é a de que a maioria dos projectos (56%) considera ter sido concebida para informar o público, tendo embora, simultaneamente, objectivos de envolvimento cívico. No relatório acentua-se o lado ambíguo desta constatação: por um lado, tal pode significar que a participação de alguns se faz com as ferramentas usuais; por outro, pode também querer dizer que uma maioria dos jornalistas se sente confortável nos dois modos de trabalhar. No impacto dos projectos assinala-se a dificuldade desta mensurabilidade mas identificam-se alguns aspectos precisos, como, por exemplo, o uso dos projectos por outras organizações, o aumento de competências de cidadania para os envolvidos ou a influência sobre a formação de novas organizações, além de outros.

Livros  Traquina e Mário Mesquita, , Jornalismo Cívico, Lisboa, Livros Horizonte, 2003. Este livro é uma colectânea de seis textos sobre este assunto com dois textos introdutórios: Jornalismo Cívico: Reforma ou Revolução, de Nelson Traquina e As Tendências Comunitaristas no Jornalismo Cívico, de Mário Mesquita. Esta obra e o site do Pew, são duas fontes essenciais de consulta para os que se querem iniciar no jornalismo cívico.
Sobre os jornalistas como actores sociais há o trabalho de mestrado do jornalista Joaquim Trigo de Negreiros, Fantasmas ao Espelho : Modos de Auto-Representação dos Jornalistas, Coimbra, Minerva Coimbra, 2004. O autor mostra como os jornalistas que colaboraram no trabalho se vêem sobretudo como disseminadores de informação e intérpretes da actualidade, rejeitando a função de entretenimento ou de construtores da realidade social.

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