domingo, outubro 15, 2006

CRÓNICA DE 16 de Outubro, no DN- Correspondência

E-mail do leitor

Assunto: Entrevista
http://dn.sapo.pt/2006/10/01/media/a_tem_servico_publico_qualidade.html
na edição on-line de 1 de Outubro de 2006

Senhor Provedor,

É a primeira vez que me dirijo a um Provedor e, creia, faço-o com grande curiosidade quanto à resposta que tiver a gentileza de me fornecer.

A entrevista ao presidente do Conselho de Opinião da Rádio e Televisão de Portugal traz o título: "A RTP Tem um Serviço Público de Qualidade". No entanto, o que o entrevistado disse, sobre a questão da qualidade, foi o seguinte:

Temos um bom serviço público?

Olhando pela perspectiva financeira, seguramente que sim. Mas, não podemos considerar esse o objectivo-limite. Só agora se começa a poder ter uma maior exigência em matéria de conteúdos, onde ainda há muito, mesmo muito, repito, a fazer .

Se bem entendo, o entrevistado apenas considerou de qualidade o aspecto financeiro, mas logo sublinhou que esse não é o principal objectivo do serviço público. Pelo contrário, quanto aos conteúdos, disse - e repetiu com ênfase - que há muito, mesmo muito a fazer para atingir a desejada qualidade. Li bem? Entendi bem?

Se li e entendi bem, então o título é uma manipulação distorcida e grave da declaração do entrevistado, dando a entender exactamente o contrário daquilo que pensa sobre o que, para ele, é o mais importante : a qualidade dos conteúdos. Que acha deste título, Senhor Provedor?

Segunda e última questão:

A entrevista faz-se acompanhar de uma foto do entrevistado, sem legenda na edição on-line. Ora, em nenhum momento do texto eu consegui encontrar o NOME do entrevistado! Li uma série de declarações interessantes, de uma pessoa que o jornalista se esqueceu de identificar. QUEM É o senhor presidente do Conselho de Opinião da Rádio e Televisão de Portugal? Fiquei sem saber. Que acha disto o Senhor Provedor?

Fico-lhe grato pelo favor das suas respostas.

Atenciosamente,

Carlos Nuno de Abreu

E-mail da jornalista
Caro Provedor,
De acordo com o solicitado, aqui vai o meu esclarecimento.
O título "A RTP tem um serviço público de qualidade" está sustentado na resposta do entrevistado, Manuel Coelho da Silva, presidente do Conselho de Opinião (CO) da RTP, que diz, tal como o leitor refere, "Olhando na perspectiva financeira, seguramente que sim". Um aspecto, aliás, central em todas as avaliações a que a RTP tem estado sujeita, sobretudo da parte da opinião pública, nos últimos, quatro anos, pelo menos. A prova de que este é um factor determinante está, curiosamente, num estudo anunciado na quarta-feira (publicado pelo DN na quinta-feira, dia ) feito pela União Europeia de Radiodifusão, que coloca a RTP nas posições cimeiras entre os 15 principais operadores públicos europeus na prestação deste género de serviço público. Porém, o presidente do CO continua, tal como o leitor diz, esclarecendo que: "não podemos considerar esse objectivo-limite", para logo acrescentar que "só agora se começa a poder ter uma maior exigência em matéria de conteúdos". É certo que o entrevistado reforça que é uma área "onde ainda há muito, mesmo muito, repito, a fazer", mas também deu ao longo de toda a entrevista vários exemplos do bom trabalho, alguns premiados, que a RTP está a fazer a este nível. Ainda assim, este aspecto foi considerado e referido por mim no textinho que antecede a primeira pergunta da entrevista propriamente dita. É só verificar.
Quanto ao nome do entrevistado na edição online, só posso dizer que não tenho qualquer responsabilidade no assunto, pois tratam-se de questões técnicas que não me dizem respeito.


Email de Manuel Coelho da Silva, Presidente do Conselho de Opinião da RTP
Senhor Provedor
Importa que comece por ressaltar a extrema atenção com que o Leitor seguiu a entrevista. Ao questionar o Provedor sobre as duas matérias em análise, fá-lo de forma pertinente, quase me atrevo a dizer, com um rigor pedagógico.
De facto, o título, objectivamente, parece ir além do que é sustentado no texto. Contudo, como a entrevista foi gravada e a conversa foi mais longa do que aparece reproduzido, não me chocou o título, dado tê-lo contextualizado nessa mesma conversa alargada, onde afirmei, entre outras coisas, que não era possível ter serviço público de qualidade sem que a situação financeira lhe garantisse sustentabilidade.
O que aparece, em síntese, reproduzido no texto traduz, efectivamente, o que disse e o que penso.
Devo ainda destacar que fiquei com a melhor das impressões da Senhora Jornalista que teve o cuidado de, face à circunstância de a entrevista ter saído oito dias depois do previsto, por falta que não lhe é imputável, ter tido o cuidado de a expurgar, com grande profissionalismo, de tudo aquilo que tinha sido ultrapassado pelo decurso do tempo.
Devo acrescentar que não vi o texto de edição “online”, mas, mais uma vez, cumprimento e felicito o Leitor pela sua atenção e cuidado, pese embora, creio, que a falha por ausência do nome não se deva à Jornalista.
Só poderemos ser melhores se os nossos leitores forem cada vez mais precisos e interactivos com o trabalho produzido.
Saber que há alguém que vai escrutinar, com rigor, o que escrevemos e dizemos, cria cultura de exigência e profissionalismo.

domingo, outubro 08, 2006

OLHAR PARA O JORNALISMO CÍVICO

José Carlos Abrantes

publicado na coluna do Provedor dos Leitores, 18/10/2004, no Diário de Notícias


“Há jornalistas que não sabem o que são as ONGs” (Organizações Não Governamentais). Esta afirmação de Francisco Sarsfield Cabral estimulou-me a questionar o Director de Informação da Rádio Renascença e também Cáceres Monteiro, director da Visão, num debate recente organizado pela revista Fórum DC (D de desenvolvimento e C de Cooperação). Perguntei a ambos se os jornalistas teriam alguma informação e oportunidades de reflexão sobre jornalismo cívico, assunto que havia sido introduzido por uma conferência de Jan Schaffer, directora executiva do Pew Center for Civic Journalism (http://www.pewcenter.org/). A resposta de ambos, negativa quanto à difusão e conhecimento deste tipo de jornalismo nas redacções, motivou a crónica de hoje.
O jornalismo cívico é um movimento que irrompeu nos EUA na década de 90. Uma das razões da sua aparição é a baixa credibilidade dos media na opinião pública americana. Numa sondagem citada por Nelson Traquina (ver Bloco Notas) realizada nos EUA a maioria (63%) dos inquiridos afirmava que os media são frequentemente influenciados por pessoas e organizações poderosas. Essas influências têm sido infelizmente visíveis em Portugal ao longo dos anos, na ditadura de uma forma aberta e sistemática, depois nalguns governos do pós 25 de Abril, tendo-se tornado agora muito cristalina no grave conflito aberto pelas pressões que levaram à saída de Marcelo Rebelo de Sousa da TVI. A irrupção do jornalismo cívico está ligada à recuperação da credibilidade mas também à concepção que o jornalismo deveria promover o desenvolvimento da cidadania. Mário Mesquita considera que na origem desta teorização se encontram as teorias do “comunitarismo” e ainda “a crítica ao comportamento dos jornalistas perante a política e os políticos, entendida como uma atitude de “cepticismo” sistemático, susceptível de contribuir para o desinteresse dos cidadãos pela vida pública."
Quais são os traços distintivos do jornalismo cívico?
Um dos mais consensuais será a preocupação de fundo com a cidadania e com as comunidades. Nesta linha caberia ao jornalismo cívico, segundo David Merrit, um dos seus promotores, uma importante contribuição para a revitalização da vida pública. Alguns vincaram a ligação actual do jornalismo a uma prática de acompanhamento das elites, por exemplo, com o correlativo abandono dos outros cidadãos e das temáticas ligadas à vida das comunidades. Ilustrativo deste aspecto podem ser os projectos desenvolvidos pelo jornal Wichita Eagle. Em 1990, a partir de sondagens e grupos de discussão (focus grupos) o jornal, associado a uma rádio e a uma televisão, fez a cobertura de uma campanha eleitoral a partir das questões identificadas pelos eleitores e não, como é tradicional, a partir dos temas sugeridos pelos candidatos. O jornal identificou assim a “agenda dos cidadãos” que serviu depois de base para as peças jornalísticas o que altera a tradicional cobertura adversarial da luta política.
O terreno eleitoral foi assim o domínio de origem do jornalismo cívico. Depois, numa primeira fase, os projectos envolveram os cidadãos na deliberação colectiva sobre problemas gerais das comunidades e, numa segunda fase, actuaram em questões sociais específicas como as questões raciais, os problemas da imigração e da juventude.
Esta corrente de jornalismo não deixa apenas para a responsabilidade dos políticos a qualidade da vida cívica. Tem o mérito de tornar os jornalistas co-actores na melhoria da democracia, fazendo nisso a ponte com o outro vértice do triângulo: os cidadãos. O abandono do jornalista da posição de observador para a posição participante é uma das críticas mais tecidas ao jornalismo cívico pelo defensores das práticas usuais de jornalismo.
Será o jornalismo cívico uma panaceia universal para curar os males das doenças graves do jornalismo de hoje? Não é seguramente, nem tal panaceia existirá. Mas poderá ser um fermento inovador em tempo de crise(s): crise na credibilidade, crise nas vendas, crise na participação cívica nos actos eleitorais e na vida comunitária. Haverá ainda quem pense que as pequenas coisas não podem ser motor de grandes transformações?







BLOCO NOTAS
Investigação  Uma investigação sobre dez anos de jornalismo cívico pode ser consultada no site do Pew Center for Civic Journalism (http://www.pewcenter.org/doingcj/spotlight/index.php). A investigação descreve os projectos em actividade e extrai algumas linhas de força desses anos de intervenção. O estudo conclui que, no período analisado, mais de 300 jornais americanos se envolveram em projectos de jornalismo cívico (um quinto do total). A investigação dá conta da consolidação de técnicas utilizadas, como os grupos de discussão e os fóruns colectivos de decisão, e refere também o aparecimento de projectos com interactividade on-line a partir de 1998. Uma das descobertas quantificadas é a de que a maioria dos projectos (56%) considera ter sido concebida para informar o público, tendo embora, simultaneamente, objectivos de envolvimento cívico. No relatório acentua-se o lado ambíguo desta constatação: por um lado, tal pode significar que a participação de alguns se faz com as ferramentas usuais; por outro, pode também querer dizer que uma maioria dos jornalistas se sente confortável nos dois modos de trabalhar. No impacto dos projectos assinala-se a dificuldade desta mensurabilidade mas identificam-se alguns aspectos precisos, como, por exemplo, o uso dos projectos por outras organizações, o aumento de competências de cidadania para os envolvidos ou a influência sobre a formação de novas organizações, além de outros.

Livros  Traquina e Mário Mesquita, , Jornalismo Cívico, Lisboa, Livros Horizonte, 2003. Este livro é uma colectânea de seis textos sobre este assunto com dois textos introdutórios: Jornalismo Cívico: Reforma ou Revolução, de Nelson Traquina e As Tendências Comunitaristas no Jornalismo Cívico, de Mário Mesquita. Esta obra e o site do Pew, são duas fontes essenciais de consulta para os que se querem iniciar no jornalismo cívico.
Sobre os jornalistas como actores sociais há o trabalho de mestrado do jornalista Joaquim Trigo de Negreiros, Fantasmas ao Espelho : Modos de Auto-Representação dos Jornalistas, Coimbra, Minerva Coimbra, 2004. O autor mostra como os jornalistas que colaboraram no trabalho se vêem sobretudo como disseminadores de informação e intérpretes da actualidade, rejeitando a função de entretenimento ou de construtores da realidade social.

ESCREVA, COMENTE, CRITIQUE  Os leitores podem manifestar as suas opiniões sobre a informação do DN enviando email para provedor2004@dn.pt
enviando fax para 213187515 ou 213187516
ou escrevendo para
Provedor dos Leitores
Diário de Notícias
Avenida da Liberdade, 266
1250-149 Lisboa

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© José Carlos Abrantes

domingo, outubro 01, 2006

Texto da professora Maria Regina Rocha, Consultora do Ciberdúvidas

«Um terço dos estudantes já foi (e não “foram”) vítimas de violência»

A frase «um terço dos estudantes já foram vítimas de violência», constante no titulo da primeira página do “Diário de Notícias” de 22 de Setembro p.p. – frase. de resto, repetida na primeira página do jornal “Público” desse mesmo dia, 22 de Setembro – diz respeito a uma das áreas críticas da língua.
É um dos casos de sujeitos de estrutura complexa, constituídos por um núcleo principal (metade, terço, maioria, parte) e uma expressão encaixada (dos alunos, das pessoas…).
Há gramáticos que consideram que, quando o sujeito é constituído por uma expressão partitiva (de que “um terço” é exemplo) e um substantivo ou um pronome no plural, o verbo pode ir para o singular ou para o plural. Os mesmos gramáticos acrescentam – com abonação de frases de autores consagrados – que essa escolha de singular ou plural tem que ver com uma determinada intenção: “Deixamos o verbo no singular quando queremos destacar o conjunto como uma unidade. Levamos o verbo ao plural para evidenciarmos os vários elementos que compõem o todo.” – escrevem Celso Cunha e Lindley Cintra na pág. 496 da Nova Gramática do Português Contemporâneo.
A concordância com o núcleo encaixado consiste numa concordância pelo sentido, ou silepse.
Ora numa perspectiva normativa – e não apenas descritiva – deverá defender-se como regra o uso do singular nestas situações, pelos seguintes motivos:
1.º – São poucos os exemplos de escritores apresentados em gramáticas abonando o uso do plural (alguns autores brasileiros e alguns autores portugueses anteriores ao século XX) e, por vezes, há hesitações entre o plural e o singular.
2.º – Por outro lado, trata-se de escrita literária, criativa, artística, que permite a utilização de processos enfáticos, o realce de determinados termos em relação a outros. Assim, pelos pontos 1.º e 2.º, as abonações desses escritores deverão ser consideradas com alguma reserva.
3.º – Normalmente, quando se utiliza uma expressão partitiva é porque importa esse conjunto particular (a metade, o terço), que, aliás, figura em primeiro lugar (“um terço dos estudantes”), sendo, pois, rara a situação em que se pretende “evidenciar os vários elementos que compõem o todo” (“os estudantes”).
4.º – A utilização do singular é a que respeita a concordância com o núcleo principal da construção, com o seu núcleo sintáctico.
5.º – Se se transformar a frase em duas, subentendendo-se, na segunda, o núcleo encaixado, é visível a impossibilidade do emprego do verbo no plural, sentido como totalmente marginal. Exemplos:

(1) Um terço dos estudantes já foi vítima de violência. = Há muitos estudantes no país. Um terço já foi vítima de violência. (e nunca: Um terço já foram vítimas de violência.)
(2) Um terço das pessoas que vivem nas cidades tem fracos rendimentos. = Há pessoas que vivem nas cidades. Um terço tem fracos rendimentos. (e não: Um terço têm fracos rendimentos.)

Concluindo: ao contrário do que fez o “Diário de Notícias” (e o “Público”, já agora…), neste tipo de frases, deve usar-se o singular, que respeita a norma sintáctica, evitando-se a concordância pelo sentido.

Maria Regina Rocha
(professora de Português, consultora do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa)