sábado, abril 22, 2006

OS DIAS LOUCOS DO PREC José Pedro Castanheira

Texto da intervenção de José Pedro Castanheira na apresentação de
OS DIAS LOUCOS DO PREC
18.4.2006

"Comparado com as pessoas com quem tenho a honra de estar na mesa, e sobretudo com muitos dos presentes nesta sala, o meu papel neste "filme" foi o de um apagado e modestíssimo figurante. É certo que, em 1975 – tinha eu apenas 22 anos -, já trabalhava na imprensa, mas ainda não me sentia um jornalista a sério. Julgo que só passei a sê-lo em Agosto de 1975, já a aventura do PREC ia na segunda parte. Convidado a integrar a Redacção de um novo jornal diário, nem hesitei. Era um vespertino, chamava-se «A Luta» e era o substituto do «República», o jornal que em Maio fora silenciado, num processo muito polémico e discutido, mas cujos contornos exactos, em matéria de responsabilidades políticas, ainda não estão inteiramente esclarecidos. Dirigido pela dupla Raul Rêgo / Vítor Direito, a redacção de «A Luta» era, no essencial, a mesma do «República». Lá estavam nomes como João Gomes e Álvaro Guerra, o casal Rui Camacho e Helena Marques, o João Grego Esteves, o Eduardo Paz Ferreira, o José Rocha Vieira, os irmãos (e meus futuros companheiros de maratonas) Arons de Carvalho, o Francisco Belard (que, muitos anos depois, viria a reencontrar aqui no «Expresso»), e o Miguel Sousa Tavares, ele, como eu, caloiro de jornalismo de tarimba.
«A Luta» nasceu a 25 de Agosto. Dez dias depois, a 5 de Setembro, realizou-se a célebre Assembleia do MFA em Tancos, que marcou uma alteração decisiva na relação de forças entre as várias correntes político-militares e ditou a demissão do primeiro-ministro do V Governo Provisório, general Vasco Gonçalves. Jovem e verdíssimo estagiário, fui um dos enviados do jornal a Tancos. Fomos vários, lembro-me que em dois automóveis. Foi a primeira vez, como jornalista, que vi de perto, bem à minha frente, com a possibilidade de lhes fazer perguntas, numa sensação incrível, as principais figuras míticas da Revolução. Algumas delas, infelizmente, já faleceram, como Costa Gomes, Vasco Gonçalves, Pinheiro de Azevedo, Carlos Fabião. Outras, felizmente com saúde - algumas delas aqui presentes - como Vasco Lourenço, Rosa Coutinho, Varela Gomes ou Otelo Saraiva de Carvalho.
Estivemos em Tancos o dia todo. Regressámos à redacção, no Bairro Alto, exaustos e já noite dentro. Vinha com a cabeça a fervilhar de emoções, sensações e até algumas informações. Mas, acreditem, não escrevi sequer uma linha. Não passava de um estagiário de jornalismo, tinha ido apenas para ver, cheirar e aprender com os meus camaradas mais velhos e experientes. Na altura, fiquei desalentado e até frustrado por nada escrever. Sentia que tinha falhado o encontro com o acontecimento! Mas olhando para trás, ainda bem que não o fiz: provavelmente, prestaria um mau serviço aos leitores, ao jornal e a mim próprio. Essa inesquecível jornada de Tancos acabou por ser uma das minhas grandes aulas de jornalismo. Era assim que se estudava e aprendia jornalismo, há trinta anos...

A Assembleia de Tancos foi numa sexta-feira. No dia seguinte, sábado, a melhor informação vinha na primeira página do «Expresso». Aliás, esta revisitação do PREC - como o meu querido amigo Adelino gosta de lhe chamar - deu para perceber quanto mudou na Imprensa portuguesa nos últimos trinta anos. Direi mesmo que, de todos os títulos que sobreviveram, o «Expresso» foi o que menos mudou e que mais fiel se tem mantido a si próprio. Mesmo se trocou o acanhado andar que ocupava na Rua Duque de Palmela, por este fantástico e moderno palácio de aço e vidro em Laveiras. Mas, quanto ao mais, manteve-se praticamente constante. À sua volta, tudo mudou. Até a folha oficial mudou de título, de «Diário do Governo» para «Diário da República»...
Dos muitos semanários de expansão nacional então existentes, fossem jornais ou revistas, o «Expresso» é, significativamente, o único sobrevivente. Todos os outros desapareceram! E dos jornais diários de âmbito nacional, excepção feita aos do Porto - onde as coisas, em matéria de Imprensa, parecem mais sólidas e conservadoras... - apenas subsiste, calculem, o «Diário de Notícias», e à custa de sucessivas mudanças – no formato, na direcção, na propriedade, até na linha editorial. No «Expresso», em contrapartida, o principal proprietário era o mesmo de hoje. À época, Francisco Pinto Balsemão também era o director; não director de fachada, mas director efectivo, a orientar o jornal, a escrever notícias, a fazer entrevistas. Outros nomes viriam a integrar o património histórico do jornal: desde as análises, sempre imaginativas, de Marcelo Rebelo de Sousa, às reportagens de Augusto de Carvalho, passando por textos de Vicente Jorge Silva, José António Saraiva, Helena Vaz da Silva ou Maria João Avillez, sem esquecer os fantásticos cartoons de António. Dos inúmeros cronistas, da direita à extrema-esquerda, portugueses e estrangeiros, e para não provocar susceptibilidades por omissão, citarei apenas Eduardo Lourenço. Foi ele quem, em Agosto de 1975, comentou certeiramente um documento (mais um...) aprovado numa Assembleia do MFA e que definia o MFA como Movimento de Libertação Nacional. A partir de França, Eduardo Lourenço avisava, sempre lúcido: «De movimentos de libertação nacional, mais ou menos militares ou militarizados, está a História cheia».
Voz independente, crítica e livre, o «Expresso» incomodava o poder – como, de resto, já o fizera, no último ano do caetanismo. Razão porque, em Junho de 1975, um dirigente político das esquerdas exigia a ilegalização quer do «Jornal Novo», quer do «Expresso», sendo que este último era apontado como «o órgão que mais tem colaborado na intoxicação da opinião pública» - proposta que viria a ser apoiada, pasme-se, por alguns jornalistas e até governantes. No mesmo mês de Junho, um ministro viria a dizer do «Expresso» que é "talvez um bom jornal, mas é anti-nacional". E Vasco Gonçalves, no seu famoso discurso de Almada, chamou-lhe mesmo "pasquim". Sempre atento à área do poder, houve números em que a primeira página era preenchida, na totalidade, por notícias militares e quase todas em primeira mão. Temido pelo poder, era contudo lido, comentado e respeitado pela opinião pública. No Verão, chegou a ultrapassar os 130 mil exemplares de tiragem. E em Novembro, passou a sair duas vezes por semana (ao sábado e à quarta-feira), com o objectivo de tentar responder à «demasiada rapidez» com que decorria, agitada, a vida portuguesa. O «Expresso-Extra», porém, só saiu três vezes: com o 25 de Novembro, retomou a sua tradição e matriz inicial de semanário.

O «Expresso» é apenas uma das fontes deste livro, a par da restante Imprensa da época, de numerosos livros que ao longo destes trinta anos têm sido editados sobre o PREC, e de alguns testemunhos que fomos colhendo. Muita gente julga que já tudo foi dito e escrito sobre a Revolução portuguesa. Não é verdade. A simples leitura dos jornais da época mostra como subsistem inúmeras pistas por explorar e desenvolver, em torno de acontecimentos de que já nos esquecemos ou subavaliámos. Há episódios que davam, por si só, para grandes reportagens, senão mesmo para livros e inclusivamente documentários de televisão.
Um dos mais ignorados - e que não me canso de citar - foi a visita a Portugal do sociólogo francês Alain Touraine, certamente por ter ficado eclipsada pela anterior visita do ainda mais famoso Jean-Paul Sartre – de que publicamos uma fantástica fotografia (a pág. 50), com o filósofo a manusear uma espingarda-metralhadora G-3, no Ralis. Touraine e Sartre foram dos inúmeros intelectuais que fizeram o chamado turismo revolucionário em Portugal. Estava previsto que Touraine desse uma conferência no antigo Instituto de Ciências Sociais e Política Ultramarina - a escola que mais quadros coloniais forneceu à ditadura. No entanto, um inusitado plenário, de professores, estudantes e funcionários, impediu a conferência de Touraine, rejeitado por ser um "representante da sociologia francesa burguesa que se coloca acima da luta de classes". Quem ficou a ganhar foi o ISCTE, para onde a conferência foi transferida...
Outros episódios, bem mais conhecidos - e a merecer o devido tratamento histórico - são, por exemplo, a prisão, só na noite de 28 de Maio, de 432 militantes do MRPP; o julgamento e a absolvição, por um tribunal popular, de José Diogo, apesar de ser o assassino confesso de um latifundiário alentejano; as dezenas e dezenas de atentados bombistas, quase todos organizados pelos mesmos operacionais ligados a um grupo de extrema-direita; a destruição, também à bomba, mas pelo poder instituído, das antenas da Rádio Renascença; ou o assalto e incêndio da embaixada de Espanha, ante a passividade de polícias e militares, e o pavor das chancelarias. Já para não falar do cerco da Assembleia Constituinte, talvez o momento em que a conquista do poder, no sentido literal do termo, esteve à distância de um palmo.
Há muito, portanto, por desbravar sobre estes oito meses de euforia, frenesim e vertigem, a que chamámos, por conveniência jornalística, "Os Dias Loucos do PREC". Aliás, nos vários contactos telefónicos que fiz, junto de alguns presentes e outros ausentes, perguntaram-me quase sempre se o livro continha algumas revelações importantes. A convicção era, invariavelmente, a mesma: já passaram trinta anos, há muita coisa ainda por contar, é tempo das línguas se soltarem e as canetas (ou os teclados de computador) começarem a escrever. Também eu - ou melhor: também nós, o Adelino e eu - assim pensamos. Este é o nosso contributo.
Com este livro, os dois jornais prestam um verdadeiro serviço público. Esperemos que o exemplo frutifique, para que todos tenhamos um conhecimento mais rigoroso, completo e exaustivo da nossa própria História."

Paço d’Arcos, 18 de Abril de 2006

José Pedro Castanheira