terça-feira, março 28, 2006

OS FALSOS COMENTADORES

Eduardo Cintra Torres

Público, 26 de Março 2006

"O programa de Paulo Portas na SIC Notícias insere-se na habitual promiscuidade entre o que é comentário e o que é fazer política.
Esta confusão foi levada ao extremo em Portugal com o abrigo dado pelos jornais, rádios e canais de televisão a dirigentes políticos para «comentarem» a actualidade. Este tipo de programação explica-se em primeiro lugar por razões económicas: precisamente porque os políticos «comentam» na qualidade de políticos, os media não lhes pagam. O político fica assim em vantagem no espaço mediático sobre qualquer verdadeiro especialista para quem o comentário é um ganha-pão.
Mas os políticos não só permitem que os media se abstenham de contratar comentadores legítimos como trabalham à borla, o que deveria ser proibido. Nos Estados Unidos, os sindicatos não permitem esta situação, mas a América é um país horrível e cá é que os sindicatos não se preocupam com miudezas como a do conceito de que todo o trabalho deve ser pago. E como reverter esta situação, se os sindicatos a ignoram e se as leis são feitas no parlamento pelos próprios políticos que beneficiam do tempo de antena?
Fazer comentário ou crítica é um fim em si: além da eventual elucidação dos leitores ou espectadores, o comentador não pretende obter outro modo de vida a partir dessa actividade. Pedro Lomba, que faz verdadeiro comentário na imprensa, sentiu-se levado a explicar que no seu caso o comentário não é «a extensão de qualquer outra coisa», que os seus textos valem pelo que são e não têm uma agenda escondida (DN, 24.03).
Fazer política é pretender intervir na vida da comunidade através do exercício do poder político institucional. É isso que Paulo Portas faz através do Estado da Arte (SICN, 3ªs, repete 4ªs). Portas tem este programa porque quer reconquistar o poder. O programa não serve para mais nada.
Ele tem opiniões interessantes e preparadas, mas fala tanto em função de si mesmo e da sua carreira que o programa se torna quase biográfico. E nem sequer é isso que está aqui em causa. As opções ideológicas de Portas ou os livros e filmes que lê e vê nos tempos livres são o embrulho da ambição política de Portas. Tal como Sócrates e Santana antes dele -- dois pseudo-comentadores que chegaram a primeiros-ministros um atrás do outro -- Portas usa o falso comentário para fazer política activa e intervir à distância no CDS-PP até chegar a oportunidade de reconquistar o poder.
A televisão dá a estes falsos comentadores uma injusta vantagem sobre os seus adversários nos partidos. Neste caso, enquanto Ribeiro e Castro tem de andar voando de trás para a frente entre Bruxelas e Lisboa, enquanto tem de aturar a banda dos deputados irrequietos, enquanto tem de visitar concelhias e empresas em franco progresso e ainda arranjar oportunidades para conseguir uns sound-bites nos noticiários da oito, Paulo Portas pode ler um livro até de madrugada, levantar-se ao meio-dia, descer à Avenida para escolher uma gravata e um lencinho que façam pendant com o cenário -- e esperar pela meia hora de tempo de antena na televisão.
Isto está à vista no programa. Enquanto os comentadores «normais» se sentam em modestos estudiozinhos da SIC Notícias ou de outros canais, Portas tem para ele um cenário de grande pose, amplo como nos palácios as escadarias e os salões, assim conotando a importância da personagem. A mesa tem um escorrega em direcção ao espectador. O escorrega faz a ligação visual entre Portas, personagem do poder, e cá em baixo o espectador súbdito. Com a boleia da televisão, sugere-se, Portas só terá um dia que descer de carrinho o escorrega do cenário e vir juntar-se a nós, de novo como Paulinho das feiras.
Ele não é entrevistado por Clara de Sousa enquanto comentador, mas na qualidade de ex-dirigente partidário e futuro qualquer coisa. A sua atitude e a da entrevistadora são a de que Portas está ali de passagem. Sem ter a maçada da vida partidária, Portas fala como ex-líder, como futuro líder, como «conselheiro», como padrinho.
Na segunda edição do programa (21.03), um dos temas candentes era a situação no PP, com a oposição dos meninos mais irrequietos ao líder voador Ribeiro e Castro. O que se esperaria de um comentador? Que comentasse. Mas não. Clara de Sousa pediu desculpa, pediu literalmente desculpa, por ter de abordar um tema de que todo o espaço público falava, como se fosse tabu o «comentador» falar dele. Portas, compreensivo pela «ousadia» da entrevistadora amiga, disse que não podia comentar, mas lá foi dizendo que se a situação se agravar no seu partido ele toma o escorrega e lá vai salvá-lo. Qualquer semelhança entre isto e o comentário destinado a elucidar o espectador é mera coincidência. Como era de esperar, os jornais retomaram essa declaração de Portas, a única de interesse no programa, não por ser de comentário, mas por ser de político em acção política.
Antigamente, os ex-líderes esperavam na sombra dos corredores, agora esperam sob a luz dos projectores da televisão.
Perante as meias horas que os canais dão a uns políticos em cenários que lhes são dedicados, torna-se um exercício diletante contar os minutos que Jerónimo ou Mendes, Sócrates, Castro ou Louçã aparecem nos telejornais.
Sendo as prestações como as de Portas meras entrevistas políticas, os operadores de televisão têm aqui uma situação que deve ser ponderada eticamente. Devem proporcionar espaços de entrevista política e assim intervir directamente no curso da vida política de um partido e até de um país? Devem criar tremendos desequilíbrios nos tempos de antena que proporcionam aos diversos actores políticos? Mas o mais grave é que pode haver a intenção escondida de promover determinados políticos através da cedência de tempo de antena. Aconteceu com Collor de Melo no Brasil, promovido pela TV Globo. E aconteceu com Santana e Sócrates, promovidos pela RTP1, quando Emídio Rangel dirigiu o canal. Rangel pode não ter vendido um presidente como quem vende um sabonete, mas, quanto a primeiros-ministros, conseguiu vender dois sabonetes. "