domingo, março 19, 2006

O outro lado do jornalismo

Artigo de Eduardo Cintra Torres, no Público, dia 19 de Março 2006

Ao contrário da maioria dos comentadores, não vejo na lei da ERC uma ofensiva legalista do governo contra a liberdade de imprensa. Não é por aí que a democracia e os direitos dos jornalistas morrerão à porta das redacções. São os actos e os comportamentos que fornecem a correcta impressão de que o governo quer pôr os jornalistas nos eixos. Vicente Jorge Silva chamou a atenção para a arrogância pessoal do ministro Augusto Santos Silva (DN, 14.03), intolerância que realmente se comprovou no Clube de Jornalistas (Dois, 15.03) quando o ministro interrompeu durante 50 minutos quase todas, se não todas, as intervenções não só dos três outros participantes – representando os meios académico, jornalístico e proprietários dos meios – como as do moderador, João Paulo Menezes.
Mas o comportamento pessoal dum membro do governo é irrelevante. Grave é o favorecimento da PRISA-PSOE no caso TVI, a imposição da propaganda governamental de António Vitorino na RTP1 e o recente processo de formação da Entidade Reguladora.
Os quatro indigitados pelo «parlamento» para a ERC foram escolhidos pela sua identificação com o Bloco Central e não pelas suas qualidades profissionais, que as têm ou terão. Os quatro deixaram que fossem os directórios do PS e do PSD a escolher o quinto elemento da Entidade e não eles mesmos, como diz a lei. E o quinto elemento fica também manchado por ter sido escolhido pelos dirigentes partidários e não pelos outros elementos da ERC. Esta mancha ninguém lhes tira.
O que se verificou na formação da ERC não foi uma formalidade democrática de «nove décimos» do parlamento, como disse Santos Silva, mas a concretização do Bloco Central dos interesses; os dois maiores partidos cartelizaram-se para dominarem o organismo: o resultado será sempre o de se defenderem um ao outro (como no caso LUSA), anulando o princípio de oposição que é basilar em democracia. Sob o manto diáfano da liberdade, não veremos a ERC beliscar interesses do Bloco Central. Isto é exactamente o contrário da «democraticidade» invocada pelo ministro e da «abertura do PSD à sociedade civil», que Marques Mendes voltava a repetir na Grande Entrevista (RTP1, 16.03).
Os comentários sobre este processo derivam não apenas da má impressão causada pelo ministro e pelo inquinado processo de formação da ERC como da situação geral que vivem os media e seus jornalistas. Nem por acaso, na semana finda em Lisboa, Ignacio Ramonet veio dizer uma verdade que muitos jornalistas que não querem ouvir dita por portugueses: o jornalismo está hoje condicionado pelo poder económico e político (PÚBLICO, 16.03).
Com uma situação económica deprimida, com mais media a explorarem o trabalho escravo de jornalistas inexperientes e poucos empregos disponíveis para tanta concorrência, compreende-se a depressão colectiva da classe, excepto a das chefias com salários que chegam a ser mais de 30 vezes superiores aos dos redactores escravos. E compreende-se, pelo menos em parte, que não haja jornalismo «de risco», contra os poderes instituídos. Ramonet tem parcialmente razão quando afirma que os media «já não desempenham o seu papel de quarto poder» (mas seria interessante explicar se também ele mesmo e o jornal que dirige, o Monde Diplomatique, se enquadram nessa afirmação genérica).
Um exemplo do lado mais negro do jornalismo foi proporcionado pela reportagem «O Outro Lado do Mundo», da autoria de Judite Sousa (RTP1, 14.03). A jornalista acompanhou uma incursão mediática dos responsáveis de três das principais organizações não governamentais (ONG) − Alto Comissariado para os Refugiados, UNICEF, PAM − à zona dos Grandes Lagos em África. A reportagem representou tudo o que não deve ser o jornalismo livre, aberto, ousado, informativo.
Tratou-se de uma peça de despudorado elogio do Alto Comissário para os Refugiados, António Guterres. Contei 36 planos em que aparecia Guterres, quase todos em visita ou sobrevoo dos campos de refugiados. Vimo-lo passear pelos campos de refugiados e descer dum avião como Américo Tomás ou os ministros de antigamente.
Os responsáveis da UNICEF e da PAM falaram para a reportagem durante 30 segundos cada um. Guterres terá falado cerca de 10 a 12 minutos, numa reportagem de meia hora.
Ele foi entrevistado a bordo dum avião, na rua e numa espécie de jardim: nenhum sítio foi suficiente, foi preciso ouvi-lo e ouvi-lo e ouvi-lo. E de que falaram os dois, Sousa e Guterres? A maior parte das declarações de Guterres foram sobre «esta fase da minha vida», «era isto que eu queria fazer» − isto é sobre ele mesmo; falaram do processo da sua eleição, − isto é, sobre ele mesmo; e falaram sobre o papel da «conhecida» Angelina Jolie em prol dos refugiados. As declarações sobre os refugiados foram irrelevantes, secundárias.
O tom da reportagem era o de acentuar a incapacidade dos Estados e dos povos dos Grandes Lagos em resolver os seus problemas humanitários: a «acção das organizações humanitárias», dizia, é «indispensável» − assim justificando os inúmeros jipes cheios de pessoas importantes através da savana, assim justificando reportagens seguras em lugares exóticos e onde os pretinhos ainda dançam para as câmaras.
A reportagem enquadrava-se com toda a evidência nesta comiseração de lágrimas de crocodilo e os dramas e os genocídios naquela região foram apenas pretexto para exibir o ego cheio, mas sempre tão humilde, oh! tão humilde, de Guterres. Foi verdadeiramente insultuoso que o drama dos Grandes Lagos servisse para uma reportagem de promoção dum dirigente duma ONG. A peça dava razão às análises mais radicais sobre o tema: «Estas ONG humanitárias constituem, com efeito – e ainda que tal se verifique ao arrepio das intenções dos seus membros –, algumas das armas pacíficas mais poderosas da nova ordem mundial: são os organismos de caridade e as ordens mendicantes do mundo. As ONG conduzem ‘guerras justas’ – sem armas, sem violência e sem fronteiras» (Hardt e Negri, Império, Livros do Brasil, 2004).
Na reportagem de Judite Sousa, Guterres falava sem fim. A jornalista enquadrava a glória do líder. Mas houve alguém que ficou em silêncio total, que foi mostrado como pano de fundo dos pontos de vista do poder político e do jornalismo ligado ao poder: não se ouviu uma única palavra proferida por refugiados, eles nada tinham a dizer nesta versão da história. Os Grandes Lagos permaneceram silenciosos.